VEMO-NOS AMANHÃ

A Passarada #8

Levantas-te de manhã. Sabes que o dia vai ser longo, mas entras logo em alerta, tens muito para fazer. Ainda são precisos uns materiais para fazer faixas para a manif e depois de os arranjares aceleras para a baixa. Pintas uma faixa, segues para o Marquês, comes com os teus amigos, está um dia lindo de sol, está um dia lindo para a guerra. Às 15:00 não está ninguém no Marquês – foda-se será vai ser um fiasco? – mas de repente estás no meio de milhares de pessoas. A manifestação está bem viva, desta vez até ficas com pica de entoar umas palavras de ordem, não parece aquele cringe habitual da passeata na rua, está toda a gente a brilhar de raiva e de alegria militante. No Rossio está tanta gente que parece que não vai dar para montar as tendas, mas todos querem ver a acampada reerguida e então naturalmente criam espaço para se retomar a praça. Estabelecida a metrópole, dás a volta à praça. Este giro já se tornou um hábito, tal como o encontro diário com os teus amigos e com tanta outra gente que procura uma vida diferente. Podias habituar-te a isto. Podias habituar-te a viver num espaço em que sair de casa não é andar como um alien no meio de estranhos, mas aprofundar e criar ligações e cumplicidades em cada esquina. Assembleia, concertos, plenário de delegados (finalmente vamos tomar decisões que não são só um braço no ar meio aleatório). Está tanta gente na praça que ninguém acha que seja possível que a polícia carregue hoje. Vamos dormir aqui de novo, amanhã vamos ter outro domingo ao sol a viver a vida como gostávamos que ela fosse e a construir força entre novas amizades. A informação que circula é ameaçadora, mas todos os dias foi a mesma coisa. Entre todos decide-se que se vai defender a acampada em bloco em vez de fazer um cordão disperso. No meio das discussões é dado o alerta de que eles estão a preparar-se. Ainda toca música no Rossio, quando toda a gente se dirige para o lado norte da praça para olhar a polícia nos olhos. A tensão monta-se. Estás com os teus companheiros, não queres perdê-los de vista. Fala-se de cães, balas de borracha e gás lacrimogéneo, mas nenhuma ameaça demove as pessoas que defendem a praça juntas e em fúria. Sobes a um banco para olhar por cima da multidão e nunca viste tanta bófia na vida. No Porto, o aparato é semelhante e as pessoas mantêm-se firmes. Tens medo, porque apesar de não te caber na cabeça como é que podem reprimir alguém desta forma por causa de umas tendas, ao terceiro aviso sabes que é quase inevitável que eles venham mesmo com tudo. Quando tudo começa, o empurrão inicial é de imediato contestado pela pressão de um bloco de pessoas que com toda a bravura faz frente à linha policial. A força do bloco mantém-se ao mesmo tempo que pessoas começam a correr por todo o lado. Duas amigas tuas recuam de braço unido, devagar, fortes e aguerridas no meio do caos. Avanças para ver se alguém ficou para trás e recuas assim que a polícia carrega. Na rua do ouro caixotes do lixo e todo o tipo de objetos são convertidos em barricadas e obstáculos. A polícia carrega em ondas, e é fácil manter a distância enquanto se vai desbravando caminho pelas ruas da cidade. Dá-me a mão, dá-me o braço, corremos juntos. No meio da multidão, algumas pessoas arrastam as suas tendas desde o Rossio e o homem aranha passa a correr à tua frente. Encontras os teus amigos. Uma pessoa passa por ti de cabeça aberta e vão-se amontoando relatos de dezenas de pessoas feridas e detidas, enquanto na Praça da Figueira a resistência subsiste. Embrenhas-te na cidade e o tempo parece parado. Parece que toda a gente com quem te cruzas esteve no Rossio. Uma pessoa que não vias há anos aborda-te com um "então, camarada?" e diz-te cheio de emoção que agora tudo mudou, já nada vai poder ser como dantes. Alegra-te ver alguém que não sabias ser teu camarada tão certo de que chegou a hora de lutar. Entretanto reune-se toda a gente, e abrem-se portas para conhecidos e desconhecidos.
Não são as tendas que os ofendem. O medo deles é que se descubra que a vida não é só trabalho e desespero e que existe uma força coletiva que, pode aprender a voar e a fazer-lhes frente em bando, pondo em causa todo o poder instituído.
Este é o fim do primeiro acto. Esperamos atentos e preparamos as nossas forças para o que vem a seguir. Espero que tenhas chegado bem a casa. Vemo-nos amanhã.
ABRIL ACABOU, ESTAMOS EM GUERRA

Se o presente movimento pela habitação emerge da indignação ante uma carga policial no Porto, e se este movimento se torna mais forte a cada repetição dessa violência de estado, o que leva Neves e Montenegro a insistir nela? O que têm a ganhar com as imagens de brutalidade policial? No cerco do Porto várias pessoas alheias à manifestação juntaram-se para a tentar apoiar. Um homem gritava que respeitava a polícia, que o seu irmão era polícia, que tinha feito o mesmo juramento que eles, mas que assim não podia ser. Se é tão evidente que o estado corre o risco de pegar fogo à pradaria porque continua a lançar chispas? E mais importante, o que é que isso significa para nós, para quem o activismo e a militância começa a deixar de ser um hobby para ser uma questão existencial?
Comecemos pela hipótese mais óbvia. Neves e Montenegro não são particularmente inteligentes nem percebem muito bem o que estão a fazer. Montenegro é um primeiro ministro acidental, desprezado pelas elites do seu próprio partido, Neves uma gangrena na credibilidade do governo. As cargas não são tanto uma escolha estratégica mas decisões ad hoc, de quem é incapaz de perspectivar um futuro longínquo e que acha que se bater com força suficiente os problemas cessam. A moderação do discurso de Neves (chegando a falar no respeitos dos direitos humanos) faria sugerir algo do género. Montenegro, de facto, não parece um estadista brilhante, mas raciocinar presumindo a estupidez do outro é uma armadilha a que não nos podemos permitir.
A segunda hipótese é que o acosso de Montenegro por Passos Coelho e Ventura o levam a aumentar o conflito social. Ante uma esquerda “inorgânica” aguerrida, combativa, desafiada a mostrar o seu poder real, e uma extrema-direita assanhada, Montenegro surgirá enquanto o que sustém Portugal ante o abismo dos “extremismos”. Para isso precisa de cativar o eleitorado do Chega e incendiar as ruas. Uma hipotética aliança Chega-PSD levaria o confronto nas ruas a níveis inéditos, e o único que o pode impedir é um governo implacável. Esta parece a hipótese mais evidente, mas ainda assim curta.
A verdade é que Abril acabou. Não é uma novidade, mas antes assistíamos à decomposição desse pacto social abrileiro e agora já estamos fora dele. Abril não volta e a sua constante evocação é apenas a medida da nossa derrota. O manifestante que se sentou no chão segurando um cravo foi o primeiro a ver a sua cabeça esmagada contra a calçada por vários polícias. A extinção irrecuperável desse pacto abre espaço a uma engenharia social que em muito transcende o presente governo ou o espaço político nacional. Hoje, aos olhos do poder, é possível tornar Portugal, finalmente, numa experiência de hipervalorização capitalista. Mão de obra barata, exportação de cérebros, extrativismo social (turismo, etc), cripto-feudalismo das elites urbanas, integradas na pequeno burguesia mundial, e proletarização da classe média que
não apanhou o barco. É essa transformação, essa subjectivação, que está curso. O futuro será de controle policial cada vez mais feroz e de explosões de violência plebeia cada vez mais selvagens.
Onde é que isto nos deixa? O que Neves e Montenegro não percebem, porque não conseguem perceber, porque lhes é totalmente estranha uma ideia de comunidade que não seja mediada pelo valor ou pelo amor ao poder, porque não concebem o tipo de laços e de inteligência que somos capazes de construir juntas, é que aqui que se abre um caminho de cabras: a possibilidade da construção de uma força comum que vá muito além do que é hoje possível conceber. Cada dia que passamos na acampada, com as suas partes boas e más, aprendemos melhor como viver e trabalhar umas com as outras. Cada diz que levamos na boca aprendemos melhor a defender-nos e a responder à violência do estado. Cada dia que nos olhamos nos olhos vimos breves lampejos do que poderia ser um outro mundo e uma outra vida. O movimento da acampada foi o primeiro facto político desde a emergência do Chega. Ele surge do mesmo local - a exaustão do capitalismo tal como o conhecemos - mas em sentido inverso. Da mesma forma que o Chega produziu um sujeito fascista, o movimento da acampada, dentro das formas futuras que tomar, poderá produzir uma singularidade revolucionária colectiva. É isso que são incapazes de perceber. É por aí que temos de desbravar caminho.

COMPANHEIRAS E INSURREIÇÃO
(uma adaptação realista do texto Mulheres e Revolução, de Maria Velho da Costa, escrito em 1975)
1. Reconstituição da força de trabalho
Elas são umas poucas centenas, o dia põe-se, elas acendem o lume. Elas cortam o pão que vão servir com o guisado na cantina. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas encontram companheiras e sentam-se pelo chão, abraçam-se à passagem. Elas enchem pratos e guardanapos e embrulham fruta num pano limpo. Elas estendem na tenda os lençóis e as mantas para os usarem outra vez. Elas esfregam o chão da praça de joelhos com escova de piaçaba e sabão e somam tarefas do seu grupo de trabalho. Elas passam no supermercado e pedem donativos, pelos cafés e confeitarias. Elas contam cêntimos. Elas escrevem frases utópicas num cartão que ia ser lixo e assim se torna sonho. Elas vêm com garrafões de água à cabeça para
matar a sede. Elas acenam entre si ora com raiva cansada ora com cumplicidade. Elas correm esbaforidas para garantir que tudo se faz. Elas vão na mesma trabalhar sem ter ido à cama. Elas realinham a discussão num eixo político. Elas retiram a tranca da praça. Elas lambem a ponta do fio da linha para virar a balaclava. Elas pousam o braço sobre a estátua para aguentar. Elas arredam o fecho na tenda. Elas também dormem.
2. Reprodução da força de trabalho
Elas vão ao microfone arregimentar os ânimos. Elas alargam a duração da voz. Elas choram quando ouvem certas coisas. Elas limpam as lágrimas. Elas passam mãos pelas costas. Elas andam descalças quando os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas cantam baixinho a meio da noite quando a polícia passeia carros de lá para cá. Elas carregam-se ao colo, às cavalitas, aos tropeções. Elas apuram o ouvido quando o PA só dá de um lado. Elas chamam Primavera a esta estação. Elas anotam cuidadosamente o código do wc do café no braço e passam-no adiante. Elas passam pela biblioteca e lêem um poema em voz alta. Elas usam a mesma roupa vários dias e vão cheirando cada vez mais a pessoa. Elas talham um rectângulo de giz no chão e dizem que agora já se vê a passagem para outro modo. Elas carregam sofás e refestelam-se em gargalhadas. Eles perdem a vergonha e começam a dançar por tudo e por nada.
3. Produção
Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para poder ver a multidão. Elas mondam as mãos tolhidas pela frieira ao acordar. Elas fazem descer a lâmina sobre a imprensa improvisada. Elas molham a ponta do dedo para distribuir o jornal todos os dias. Elas convocam os astros e perguntam-lhes como é. Elas esfregam os olhos e chamam à rua milhares. Elas têm raiva e prazer. Elas deitam-se ao sol, sobem e descem a avenida. Elas pintam uma faixa em menos de nada. Elas actualizam a estátua com novos sentidos. Elas acartam o sistema de som para onde for preciso. Elas chamam quem já canta na língua do porvir. Elas limpam o suor da testa com a manga. Elas ouvem gente chegar enquanto a turba aumenta. Elas cortam-se nas primeiras vezes que sobem aos postes. Elas tratam das feridas das primeiras detenções. Elas debatem-se com a papelada de um sistema que burocratizou tudo o que é simples. Elas vigiam as perpendiculares para saber qual é a deles. Elas amamentam entretanto a sua criança sentadas de pernas cruzadas. Elas brincam umas com as outras. Elas batem-se por fortalecer a linha justa. Elas sacam da comida que ainda tinham na mochila e partilham um bagaço. Elas rasgam mínimos paraísos com um meneio de ombros.
4. Serviços
Elas preparam primeiros-socorros e aprendem a acudir às feridas. Elas apagam as apps e encriptam os movimentos. Elas ainda mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes do lixo já noite fechada. Elas reagrupam os restos das tendas que ainda têm. Elas agitam os megafones com voz que entretanto se ausentou. Elas batem à máquina palavras para o que ainda há a fazer. Elas arquivam reflexões para depois lá voltar.
Transmissão de Ideologia
Coisas que elas dizem:
Se mexes aí, vai ficar bom.
Isso não são coisas de revolucionária.
Já tens grupo de afinidade?
Deserta, que se tiveres mais tempo para pensar sempre é uma ajuda.
Devíamos estar cá todas.
Isto já vai do afinco de cada qual.
Os astros quiseram.
Mas os representantes políticos disseram-nos que assim não.
Dá-lhes lá um votinho que são tão bonzinhos prá gente.
Toda a gente sabe que somos dessas.
Estás a assegurar o teu futuro com umas e com outras.
Deixa-te disso, o que é preciso é tomarmos a tarefa com pujança.
Rasguei uns jeans bestias, pá.
Sempre dá para expropriar mais umas tendas.
Cada qual no seu lugar.
Julgas que depois dá para ser como d’antes?
Isso de haver sempre pobres e ricos vai a debate.
Se tu gostasses de mim, passavas cá mais tempo.
Põe o comer às companheiras, que ainda não pararam.
Produção de desejo
Elas pouco olham para o espelho porque não se reconhecem. Elas riem-se. Elas suspiram por um amor colectivo e debatem os seus termos. Elas aprendem a fabricar armadilhas e protecções. Elas aprendem a defender-se. Elas cortam o cabelo entre si para se sentirem como novas. Elas carregam mais preocupações do que deviam. Elas sentem-se responsáveis e aprendem leis e portarias de um dia para o outro. Elas sonham três noites a fio que a vida podia ser assim. Elas sentem o calor insurrecto quando sacam da bandana. Elas inventam histórias e fazem planos. Elas conspiram e perdem o sono nisso. Elas nunca passaram tanto tempo de mãos dadas. Elas ignoram a rixa do dia anterior e focam-se no essencial. Elas arredam aquela tristeza que traziam
sem razão. Elas falam destas coisas. Elas atrevem-se e atiram-se ao relance. Elas celebram os cabelos brancos que ganharam. Elas chamam de noite nomes que se aproximam. Elas queriam outra coisa.
Insurreição
Elas resistiram à bófia de braços entrelaçados. Elas gritaram aos transeuntes que se juntassem também. Elas disseram que daqui ninguém nos tira. Elas souberam dizer violência policial e preparar barricadas. Elas vieram para a rua de preto. Elas escreveram no corpo o número legal para o que desse e viesse. Elas ficaram roucas. Elas encheram a praça com promessas. Elas disseram aos ricaços e à polícia que isso era dantes. Elas trouxeram alento e primeiros socorros depois da investida. Elas foram para a frente de capacete e escudo de cartão. Elas ouviram falar de uma grande mudança que aí vinha. Elas choraram e riram a correr pelas ruas. Elas encheram o bolso de acendalhas. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam outra geografia num ápice. Elas dobraram um papel em quatro com sangue da pessoa com a cabeça aberta. Elas sentaram-se a falar à roda da mesa da associação a ver como podia ser amanhã. Elas escreveram comunicados e adormeceram sentadas na cadeira. Elas levantaram o braço na assembleia. Elas cortaram bandeiras e cagaram as mãos com tinta. Elas disseram segura-me aqui os cachopos que eu vou defender o nosso horizonte. Elas iam e não sabiam para onde, mas iam. Elas acendem o lume. Elas são umas poucas centenas, o dia começa. São elas que acordam as bestas, as crianças, e as pessoas adormecidas.