UM PASSA-MONTANHAS E UM TABULEIRO DE XADREZ

A Passarada #7

Rossio, meio da tarde, acampada. Um senhor mais velho lê o jornal sentado nos degraus da estátua pintada e cheia de cartazes. A seu lado uma jovem mulher dá de mamar a um bebé. Em frente, dois jovens colocaram uma mesa de campanha e estão a jogar xadrez, ambos de balaclava. Faltam algumas horas para a assembleia geral, para chegarem os activistas, os jornalistas, os polícias, os militantes, os curiosos, os simpatizantes, os estrategas. Estão ali apenas os que não tem nada melhor para fazer. Os desempregados, os indigentes, os boémios, os estudantes. Uma imagem que se tornou tão normal que poderíamos passar por ela sem dar conta que é uma fotografia enviada do futuro. Os miúdos, a mãe, o velhinho, nós, todos nascemos num tempo onde tudo parecia mais ou menos garantido. A economia ia sempre crescer, a paz ia durar para sempre, a sociedade civil era cada vez mais dinâmica, os nossos filhos iam ter doutoramentos, fazia sol no verão e frio no inverno. Esse tempo acabou. Pelo mundo fora, os estados declararam guerra às suas populações, a burguesia começa já a contar as suas fichas antes de mandar implodir o casino, enquanto nós contamos se temos SSRIs e Benzodiazepinas suficientes para aguentar até ao dia da revolução. Como dizia uma camarada ao microfone: “Nada falta ao triunfo da civilização. Nem o terror político nem a miséria afectiva. Nem a esterilidade universal. O deserto não pode mais crescer : está em todo o lado. Mas pode ainda aprofundar-se. Ante a evidência da catástrofe, há os que se indignam e os que agem, os que denunciam e os que se organizam. Nós estamos com os que se organizam.” Um passa-montanhas e um tabuleiro de xadrez - as ferramentas básicas deste sujeito que vem.
O Comité Invisível, colectivo francês, publicou um vídeo-texto sobre a insurreição de 17 de Outubro em França. Deixamos aqui a transcrição.
De há uma semana para cá, observamo-vos a fabular, a gesticular, a delirar. Dizem qualquer coisa. Em pânico. Estão em total levitação. Só falam para vocês mesmos e para o vosso público cativo de reformados em frente à televisão. A vossa autoridade é inexistente. Para se ser respeitado, é preciso ainda ser respeitável.
A terrível verdade que há uma semana se esforçam por encobrir é simples. O 17 de outubro foi a insurreição mais alegre, mais leve, mais brincalhona e mais educada que alguma vez existiu. Os vossos bófias, como deram a entender, qualificaram esta insurreição como uma combinação entre a Comuna de Paris e a Black Friday. Tiveram tanto medo que há uma semana se perdem a esbracejar no vazio para tentar intimidar-nos, aterrorizar-nos, entristecer-nos. Podem bem ressuscitar a ORTF: toda a gente vê que o rei vai nu.
Acreditavam mesmo que ninguém se aproximaria alguma vez, em manif selvagem, da esquina da rue de l’Élysée, onde se encontram lado a lado a Compagnie Edmond de Rothschild, a embaixada americana e o Cercle interallié? Pensavam mesmo que os últimos habitantes da Paris de Bernard Arnault se contentariam para sempre com o seu estatuto de criados ou de figurantes no cenário das fashion weeks? Parecia-vos plausível que vos deixássemos, por toda a eternidade, ir-nos aos bolsos para enfeitar as vossas obscenas montras de luxo? «Mas o que é que lhes passou pela cabeça?», pergunta o vosso pervertido-mor. Então vamos explicar-vos.
O que aconteceu no sábado passado foi que vimos, pela primeira vez nesta sociedade gerontocrática, todos os jovens, sem distinção de proveniência nem de classe, tomarem as ruas dos centros das cidades, simplesmente porque se sabem prometidos ao mesmo destino de proletarização. Os jovens são, é certo, uma minoria nesta sociedade, mas, infelizmente para vocês, é a que ainda está viva. Compreendemos que tenham ficado com medo, vocês que nunca viveram nada além das etapas de uma carreira.
O tema do dia era o custo de vida. Hão de admitir que pilhar a Chanel é, ainda assim, a solução mais direta para este problema partilhado. Se tiverem outra, estamos interessados, mas não parece ser o caso. A vossa maneira de se apiedarem desses pequenos comerciantes que não pararam de empurrar para a falência com as vossas amigas plataformas não engana, evidentemente, ninguém. Recomendamos-vos, para vosso governo, que leiam finalmente aqueles cujos escritos figuram na vossa BnF a título de tesouro nacional. E em particular esta pequena brochura: O Declínio e a Queda da Economia Espetacular-Mercantil.
Não houve fiasco securitário no 17 de outubro: houve insurreição, isto é, abolição da
manifestação enquanto desfile regulado e mais ou menos fúnebre de um ponto A para um ponto B. Havia simplesmente, nos centros das cidades apinhados, gente demais e alegria demais para que um qualquer aparelho policial lhes conseguisse fazer frente. Nesse dia, ninguém estava com cabeça para se manifestar. As palavras de ordem táticas eram «Blocus République» ou «Blocus Bellecour».
Não perderam o controlo. Sabemos agora que só pareciam tê-lo graças à nossa contenção. A vossa própria resposta ao 17 de outubro confirma-nos todas as nossas razões: novos confinamentos, novos recolheres obrigatórios e até novas autodeclarações, contra o facto de termos finalmente tomado a rua. O vosso comportamento grotesco não tem decididamente limites. O que é isso senão mais uma razão para retomar a rua?
E depois, parem lá com a vossa "ultra-esquerda". Na rua, no 17 de outubro, não se viu Gilles Dauvé. Em contrapartida, viu-se o Naruto e o Capitão América, o Homem-Aranha e as Tartarugas Ninja, o Gandalf e o Luffy. Estava lá toda a gente. Havia anarquistas a cantar a Marselhesa e gente a carregar sobre as linhas da CRS com as mãos e com o riso. Havia miúdos a brincar com os vossos canhões de água como se estivessem num parque aquático. Havia uma juventude que tinha finalmente deixado de sofrer psicologicamente.
Podem tentar tudo para restaurar a tristeza sem a qual nenhum governo é possível. Podem tentar voltar a pôr nos carris o vosso comboio de manipulação eleitoral rumo à estupidez humana. Nunca conseguirão tirar-nos a alegria que vivemos.
A verdadeira expressão popular está na rua. Deixem as urnas para a casa mortuária. Fogo sobre o quartel-general da senilidade.