SOBRE A PASSAGEM DE ALGUNS MILHARES DE PESSOAS POR UM BREVE PERÍODO DE TEMPO

A Passarada #10
Em 2013, as Edições Antipáticas (editora entretanto extinta) publicaram um balanço sobre o movimento anti-austeridade do biénio quente de 2011/2012 chamado “Sobre a Passagem de Alguns Milhares de pessoas por um Breve Período de Tempo”. O texto dedicava alguns parágrafos à primeira acampada do Rossio, que aqui reproduzimos, não presumindo que se aplique à actual acampada, mas para que se note também o que mudou na década que passou. A área extraparlamentar, na sua multiplicidade, é hoje dotada de um património de discussão e experiência imensamente mais rico. A questão, no entanto, continua a ser : o que conseguimos fazer com essa experiência e inteligência comum?
Rossio
No final de Maio de 2011 e fortemente inspirada pelas ocupações de praças no Estado espanhol, iniciadas a 15 de Maio, começa a ocupação da Praça do Rossio em Lisboa. É o tempo do movimento Democracia Real Ya e do advento dos Indignados em vários países, sobretudo na Europa. Contrariamente às imagens que chegaram de várias cidades de todo o mundo, a ocupação do Rossio não conseguiu criar a cidade autónoma necessária – essa multiplicidade de pontos de encontro, essa ocupação do espaço simultaneamente descentralizada e orgânica, essa presença em tudo contrária à normal organização do território e da vida quotidiana. Noutros lados, as acampadas representaram momentos novos, mas que construíam em cima do que havia: em Barcelona e Madrid, sobre um forte movimento social que no momento da ocupação tinha uma ideia bastante clara do que havia a fazer de um ponto de vista prático (levantar infraestruturas, multiplicar os espaços, criar autonomia); nos Estados Unidos, onde a inexistência de uma “grande” Esquerda institucional deu lugar a outras formas de sociabilidade política, numerosas mas invisíveis, organizadas enquanto “sociedade civil” ou enquanto colectivos informais. Em Portugal, onde a Esquerda ainda se define principalmente pelo que diz, pelos discursos que elabora, por uma disputa de público, tornou-se lógico que a ocupação do espaço assumisse a mesma forma teatral: entre a disputa do palco e a assistência, mais ou menos entusiasmada, aos discursos. O principal problema no Rossio foi concentrar as energias na manutenção de uma assembleia popular quando o menos interessante do que lá se passava era precisamente esse momento, oscilante entre o voluntarismo naïve hiperactivista e os discursos inflamados ensaiados em frente ao espelho.
Um dos outros problemas surgidos na acampada foi a tentativa de imposição de um sentido de urgência por parte de alguns dos presentes. A urgência adequa-se ao ritmo da política institucional e favorece o controlo vanguardista ou partidário, mas é avessa ao processo de maturação que se impunha em virtude das diversas sensibilidades ali presentes. A urgência molda-se bem aos campos de uma agenda, mas não ao presente e ao futuro que ali se construía. Quando não é ditada pelos termos do conflito, a urgência torna-se apenas um instrumento útil para anular tudo o que de mais libertador e contagiante uma experiência de construção e vivência comum pode significar.
E, no entanto, apesar de tudo isto, as expectativas foram largamente ultrapassadas. Quem no primeiro dia lá passou, já de madrugada, à espera de encontrar um par de tendas e, em vez disso, deparou com dezenas de pessoas a discutir, entendeu que algo estava a mudar. Talvez o mais interessante, o que acabou por salvar o Rossio de si próprio, tenha sido precisamente que todo o mundinho activista político-revolucionário foi apanhado de surpresa. (...) O aumento do descontentamento e o crescimento de uma multidão proto-antagonista que confluiu nas manifestações e na acampada serviram para tornar o mapa mais legível, iluminando afinidades e divergências. De um momento para o outro, uma festa que durante muitos anos se fazia quase por convite depara com uma enorme fila à porta, cheia de pessoas ansiosas por se juntar ao baile ou apenas por espreitar movidas pela curiosidade. É precisamente daí que devemos partir. Nos momentos de crise dos regimes, o senso comum, conjunto das verdades que normalizam a vida em sociedade, tende a sofrer alterações muito rápidas. É preciso desejar a surpresa de recém-chegadas sensibilidades radicais para que a revolta não nos apanhe ciumentos, rancorosos e ultrapassados.
A antiguidade e persistência de um percurso dissidente é um campo de forças e não uma cátedra moral. E sabemos também que depois de uma semana de barricadas estamos todos nivelados pelas mesmas qualidades. Assim vai o tempo: dilata e comprime em função da velocidade. (...) Importa sublinhar que poucos momentos políticos vividos em Lisboa nos anos anteriores terão sido tão interessantes e marcantes. Dito de outro modo, não nos agrada necessariamente o discurso produzido nas assembleias mas agrada-nos imensamente que elas tivessem acontecido e, ainda mais, toda a infra-estrutura que as complementou e tornou possíveis. Chegar ao Rossio às duas da manhã e ver centenas de pessoas a discutir as suas vidas sem reservas e, na medida do possível, alheias às suas trincheiras ideológico-partidárias foi algo extremamente entusiasmante e que uns meses antes todos julgariam impossível.
O texto completo pode ser encontrado aqui.
SERMÃO DO ENTRETANTO
A tristeza era antes uma indicação
e os amigos mais queridos
refugiavam-se inteiros num ferimento secreto
redigíamos à noite o testamento dos parcos recursos
ruminando ainda e sempre o tédio
em dócil comando pelo umbigo
subitamente à força de astúcias
explodem as convenções históricas
o encontro na praça é a suspensão de um tempo
há que escandi-lo de acordo com celebrações
o advento que se estabeleça
íntimo, público, numa profusão de calendários
em linhas simples mas imperiosas
à procura do que antes não
em fermentações imprevisíveis
chegam ao décimo dia os poemas
a trepar aos apetrechos da voz
germinando uma só palavra que venha a ser
mistura de pólen e acaso
para as criaturas dispersas
legenda dos actos súbitos
não tarda chegamos ao definitivo
onde as cobardias se tornam insuficientes
brusco horizonte em construção