PAGARÃO CARO, PAGARÃO TUDO

A Passarada #14

Tendas, muitas tendas, gente a dormir sestas tardias dentro e fora delas, à espera da madrugada, sem saber muito bem de quem são, porque não interessa, são de todas, elas não estão ali enquanto pequeno espaço privado de cada um mas enquanto espaço reservado à resistência . Uns aborrecem-se, outros riem e bebem e cantam, outros enchem balões, outros ultimam conspirações. Tricas e rivalidades dissolvem-se ante a certeza de que ali a pouco, a única coisa que vai contar é a coragem que conseguimos reconhecer umas nas outras. O nervoso miudinho torna-se a única língua franca, e piadas proscritas murmuram-se sem medo. As armaduras são engenhosas e patéticas, as faixas não dizem nada: não precisam, já foi tudo dito, agora estão ali para nos proteger. A informação chega a conta gotas e evapora-se como água do mar na pele de verão. Os rumores prosseguem, vai ser assim, vai ser assado, não se sabe, não vai acontecer, vai acontecer de certeza. Linha da frente, linha de trás. Lá longe, no outro lado da praça, uma mão cheia de burocratas, jornalistas e juristas discute outra vez o enquadramento do que se sabe estar por estar chegar. Ninguém lhes liga muito, muitos acabam por rumar a casa.Uma fronteira clara desenha-se ali: de um lado os agentes do sistema que nos querem aniquilar e os agentes do sistema que nos querem salvar, do outro, nós, essa plebe irrepresentável, irredutível, incomensurável com qualquer jogatana palaciana. Eles que brinquem aos estados, a nós interessa-nos apenas a luta e o que fazer quando ela chegar. Os três polícias chegam, já nos conhecem, já os conhecemos. Lêem as suas ameaças como uma hospedeira de bordo lê as recomendações de segurança. Ninguém quer saber. Assumimos a forma, a polícia chega, mudamos a forma. Somos simultaneamente uma tropa macaca, uma milícia de série B e as maiores amazonas que já pisaram a praça do Rossio. Carregam. Empurrões e confusão. Não cedemos, eles também não. Recuamos calmos, passo a passo, mudamos de praça, construímos barricadas. Não fugimos, não desertamos, todos juntos. Inimigas de anos cruzam braços e correm a trocar informações. Por trás de uma barricada somos todos uma insurreição qualquer. Recuamos, reagrupamos, cuidamos- nos, desaparecemos na noite. Amanhã continua, depois também - conseguimos fazer com que o ápice da luta seja um local de encontro e de coragem e não de medo e de atomização. Podem partir-nos a boca toda cada fim de semana mas isso já ninguém nos tira.

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