GANDA ESTRILHO

A Passarada #2

Todos diziam que não era possível. Não estávamos organizadas, as pessoas não estavam prontas, não tínhamos estruturas objectivas nem condições subjectivas. A resposta foi clara. Centenas, talvez milhares de pessoas, juntas, madrugada adentro, de braços entrelaçados, prontas a defender a ocupação da praça do Rossio e prontas a pôr o seu corpo entre a violência do estado e a ideia de uma vida diferente. Um lição para todas. O que torna as lutas vivas e fortes não são apenas questões quantitativas mas sobretudo qualitativas. O que separa Portugal de França ou de Espanha não são apenas tradições e infraestrutura, mas sobretudo a burocratização do derrotismo. Na luta de classes quem toma a iniciativa ganha.
A tarde começou com a urgência dos planos que sabem que chegou a sua hora. Finda a manifestação da CGTP dezenas de pessoas correram a montar as suas tendas no lado sul da praça. A presença ameaçadora de centenas de polícias nas imediações faria supor uma acção forte e rápida logo no início da acampada. No entanto, a permanência de centenas de pessoas que faziam uma muralha humana em redor da
ocupação da praça impediu qualquer tentativa repressiva. Uma euforia enorme contagiou a multidão: a acampada existia!
O resto do serão foi uma vertigem difícil de descrever: as reuniões encavalitavam-se umas em cima das outras. As tendas não paravam de surgir e de mudar de sitio. Os cânticos e slogans eram gritados em uníssono pela praça inteira. Nas imediações da praça, veteranas das acampadas de 2011 reconheciam-se entre si enquanto pessoas que na altura nem sabiam ainda ler decoravam a estátua central com cartazes e pintadas.
Sim, somos arruaceiras, egoístas, marginais, o que quiserem. Sim, queremos mais França e menos Bruxelas. Sim, estamos dispostas a tudo para combater a arrogância psicótica da mão cheia de tecnocratas imbecis que nos governam.
Com o aproximar da hora em que a alegada "autorização” a manifestação terminava o clima tornou-se mais tenso. Ninguém arredou pé. Um debate interminável: o que fazer? Formou-se um imponente cordão humano à volta da acampada. Centenas de pessoas de braços entrelaçados, silenciosas, esperando um ataque nunca veio. Seria fácil pensar que foi algo inútil. Não foi. Foi algo histórico. Durante aquelas horas o que ali existiu não foi uma reunião de eleitores, de cidadãos, de “pessoas”, de sujeitos, etc. Foi uma força colectiva, feita de singularidades revolucionárias livremente associadas, plenamente consciente de que a sua força é a força das outras.
Esse gesto, esse cordão, essa presença, essa disponibilidade foi a melhor imagem de si própria que a acampada poderia criar e oferecer-nos a todas. Que ninguém nos diga que somos mansas, que não podemos, que não conseguimos.
Acabámos de começar algo que vai mudar tudo.
BISMILLAH C’EST LES TÉNÈBRES

Acampadas por toda a Península Ibérica. Motins em Bologna e em Milão. França a ferro e fogo. Albânia pré-insurrecional. O La Repubblica de hoje pergunta na sua capa: “Quem são os revoltosos? Nem líderes nem programas”. É natural que seja essa a sua primeira pergunta: a partir do momento que a revolta em curso tiver lideres carismáticos e programas de discussão com os governos ela deixa de ser uma revolta para ser uma negociação. Não por acaso, o jornal Público ontem tentava identificar quem eram os líderes da acampada do Porto. Não só o establishment é incapaz de perceber que conseguimos organizar-nos de um modo que as lideranças sejam fluídas e plásticas e efémeras e partilhadas e trocadas, como o primeiro passo da derrota das revoltas é a sua redução a uma mão cheia de jovens bem intencionados, contentes de ir aos jornais e televisões.
Torna-se necessário estudar, entender, e discutir o que está a acontecer à nossa volta e de que modo participamos nela. A acampada não é apenas sobre habitação, sobre território, sobre justiça e sobre direitos. Ela é, por agora, o modo de participarmos numa onda de revoltas em curso, onde se joga a reconstituição de uma força coletiva capaz de fazer frente a esse pacto suicida e genocída a que chamam “Ocidente”.