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            "summary": "A Passarada #15 Há pesos que se carregam durante anos, silêncios que se guardam décadas, medos quese reproduzem durante gerações e que depois, um dia, sem se saber muito bem como,desaparecem. O que aconteceu nas últimas semanas foi nada menos que surpreendente: perdemos o medo.",
            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <strong>A Passarada #15</strong>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/Ninguem-tem-medo-2.png\" height=\"489\" width=\"1280\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Ninguem-tem-medo-2-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Ninguem-tem-medo-2-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Ninguem-tem-medo-2-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Ninguem-tem-medo-2-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Ninguem-tem-medo-2-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Ninguem-tem-medo-2-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Há pesos que se carregam durante anos, silêncios que se guardam décadas, medos quese reproduzem durante gerações e que depois, um dia, sem se saber muito bem como,desaparecem. O que aconteceu nas últimas semanas foi nada menos que surpreendente: perdemos o medo. Perdemos esse respeitinho à autoridade que levamos entranhado no corpo, que todos os dias nos dizem que é parte de um qualquer ADN nacional. Perdemos o medo de dizer o que queremos e como o queremos, perdemos o medo de que digam mal de nós e perdemos, sobretudo, o medo da violência do estado. Não porque ela tenha deixado de ser perigosa, não porque as suas consequências tenham deixado de ser brutais, mas porque aprendemos a lidar com ela colectivamente. Descobrimos, em conjunto, que a revolta é uma técnica e um verbo, não apenas uma pose ou discurso. De ora em diante todas somos artesãs dessa revolta, cada uma à sua maneira. Acabou o tempo da indignação, começou o tempo da organização, da organização real, em que construímos tácticas e infraestruturas, não siglas e identidades.<br><br>Repete-se por todo o lado que o governo deseja esta revolta para poder mostrar a sua força e que, ao mesmo tempo, a quer matar à nascença. Em que é que ficamos? A ideia que vinga é que ninguém percebe muito bem o que está a fazer. Hoje essa hipótese ganha algum crédito, na medida em que ninguém, nem o governo, nem os media, nem o sequer o establishment crítico do governo, parece perceber muito bem o que está em jogo. A ideia de uma revolta plebeia transversal a vários sectores da sociedade parece- lhes tão inconcebível e tão estranha como se um dia o sol se apagasse, e no entanto, quando o eclipse chega, ele é para todas.\n  </p>\n\n  <p>\n    É necessário sublinhar essa dimensão plebeia. O capitalismo funciona através de classes: patrões e senhorios de um lado, proletárias e trabalhadoras do outro. O estado social surge enquanto forma de os integrar dentro de um mesmo sistema legal, mediando interesses, institucionalizando tensões, representações e repressões. Assim funcionou o capital durante as últimas décadas. Not anymore. A verdade é que a valorização capitalista já não precisa de ti para grande coisa. A financeirização do capital dispensa a maior parte de nós, excepto as nossas rendas. Servimos para pagar quartos e para servir cafés, se tanto. É esse o destino que nos está guardado. Quem está na acampada, os que não têm um tusto e os que têm um apartamento do avô algures, perceberam que a questão não é apenas a habitação mas a sociedade que está a ser construída à volta de um novo regime de subserviência desamparada. É por isso “há plebe em todas as classes” dizia Hegel. Do mesmo modo que a identificação com o capital faz com que os trabalhadores se considerem de classe média, a sua rejeição torna-nos a todos proletários.\n  </p>\n\n  <p>\n    Há algo de irrecuperável nessa condição. Nem a violência nos desmotiva nem a fancaria cívica nos convence. Essa consciência é assustadora para o poder, não apenas para o poder de Montenegro, Seguro e Neves, mas para o outro poder, o poder daqueles para quem ser “de esquerda” significa apenas uma gestão mais humana das contradições do capitalismo. A metáfora mais evidente disso ocorreu no Sábado. Enquanto centenas pessoas esperavam nas tendas que a PSP se decidisse a massacrá-las ou não, no canto oposto da praça, perto do teatro, um comité autoeleito de notáveis “dialogava” com a polícia. Dialogava o quê se era óbvio que todas tínhamos decidido resistir? Porque estavam ali em vez de ao pé de nós? Para que servem essas pessoas? Para nos salvar de nós próprios? A mais patética imagem de toda a acampada foi a “barreira” de braços soltos que estes formaram em frente aos manifestantes. A polícia passou por eles como se fossem cocós no passeio. Não os evocamos para menorizar as suas boas intenções, apenas para marcar uma diferença importante. Não somos gente bem intencionada. Não queremos negociar. Não queremos o respeitinho de gente importante. Não queremos ir à televisão. Não queremos criar elites ou estrelas do activismo. Não queremos que venha o PR ou o caralho que o foda dar-nos palmadinhas nas costas e dizer que empatiza com o nosso protesto. Queremos tomar a cidade e fazer dela o território dessa consciência plebeia. Esfolem-nos e insultem-nos: já não temos medo. Não temos nada a perder senão esta gigantesca lixeira em chamas a que chamam sociedade.\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/Pilas.png\" height=\"639\" width=\"1170\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pilas-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pilas-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pilas-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pilas-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pilas-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pilas-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n    <h2 id=\"baralhar-para-voltar-a-dar\" class=\"align-center\">\n      BARALHAR PARA VOLTAR A DAR\n    </h2>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/Baralhar.png\" height=\"470\" width=\"1168\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Baralhar-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Baralhar-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Baralhar-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Baralhar-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Baralhar-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Baralhar-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Ainda que esta Acampada esteja a surpreender de muitos pontos de vista, particularmente no que concerne a adesão de pessoas inesperadas a este tipo de ações, ou a velocidade com que estão a ser empurradas a consubstanciar o seu argumentário, formação política e tendência de repertório que daí resulta, não se podiam passar duas semanas sem que a disputa do entendimento de violência viesse à baila de fora para dentro mas também de dentro para fora. Perante a ausência decapacidade para a construção de uma estratégia jurídica, política e efetiva, desde o centro nevrálgico do protesto e das pessoas que o têm erguido diariamente, parece passar a caber aos comentadeiros ou aos advogados que gentilmente têm cedido os seus préstimos na defesa dos manifestantes, a tarefa de saltar para conclusões e definir os meios de ação em torno do entendimento que melhor lhes serve.\n  </p>\n\n  <p>\n    É assim que velhos e costumeiros erros se reafirmam e ganham força os burburinhos que classificam isto ou aquilo enquanto violência, traçando e reforçando os perfis dos bons e maus manifestantes e, nada de novo, remetendo os primeiros para a expressão mártir das formas de resistência e os segundos para um juízo de vandalismo gratuito. A disputa em torno do conceito de violência, no contexto desta Acampada, implica questionar os próprios critérios a partir dos quais determinadas práticas são reconhecidas e classificadas enquanto tal. Etiquetar os manifestantes enquanto violentos perante as investidas e a repressão policial, porque usaram um petardo, um escudo de cartão, um balão em forma de espada ou dispositivos de fumo, não é uma operação neutra: constitui um posicionamento político e discursivo que individualiza e descontextualiza os gestos de resistência, ao mesmo tempo que invisibiliza a violência estrutural e estatal que os precede e condiciona.\n  </p>\n\n  <p>\n    Importa, portanto, recusar a equiparação entre práticas de resistência e violência, sobretudo quando elas emergem num contexto de confronto marcado por uma profunda assimetria de poder. Ora, nenhuma das formas de resistência, até agora ensaiadas, pode ser automaticamente inscrita enquanto violenta apenas pela sua dimensão disruptiva, pela sua capacidade de confronto ou por desafiarem a ordem estabelecida. Fazê-lo ou permiti-lo significaria uma simplificada aceitação da definição da violência que tende a proteger e reificar as formas da autoridade estatal, naturalizando o exercício institucional da força e limitando absurdamente a nossa imaginação, capacidade de ensaio, deslegitimando as respostas que formos capazes de encetar desde um lugar profundamente coercionado.\n  </p>\n\n  <p>\n    Assim se atira borda fora a visibilidade às reais violências quotidianas, da precarização, da exclusão, do sequestro em que nos encontramos dentro de uma lógica de saque da nossa força de trabalho e motriz, que nos quer atrás dos nossas televisões a acompanhar a telenovela: formas de violência que não necessitam de produzir imagens espectaculares para assentarem os seus efeitos materiais sobre os corpos e as condições de existência.\n  </p>\n\n  <p>\n    Neste sentido, sublinhamos que a questão não passa por compreender qualquer forma de resistência enquanto reação violenta a uma ordem pacífica, mas reconhecer que a própria ordem social e política, atravessadas por múltiplas formas de violência habilmente dissimuladas, já produz as condições de emergência do confronto.\n  </p>\n\n  <p>\n    A disputa do conceito de violência é, assim, uma disputa pela autoridade de nomear: quem tem o poder de definir o que constitui ou não violência, quais as práticas que são tornadas condenáveis e quais as formas de coerção que permanecem naturalizadas, institucionalmente legitimadas ou simplesmente invisíveis.\n  </p>\n\n  <p>\n    Recusamos que esta discussão se faça noutras praças públicas, senão a partir daquela que estamos a ocupar. E não, não somos todas infiltradas. O resto é, como de costume, conversa.\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/Pombo-obreiro1-2.png\" height=\"291\" width=\"250\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pombo-obreiro1-2-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pombo-obreiro1-2-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pombo-obreiro1-2-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pombo-obreiro1-2-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pombo-obreiro1-2-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/18/responsive/Pombo-obreiro1-2-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    <em>O instante da revolta determina a fulminante auto-realização e objectivação do próprio enquanto parte de uma colectividade (…) O espaço individual de cada um, dominado pelos próprios símbolos pessoais, o refúgio do tempo histórico que cada um encontra na sua própria simbologia e na própria mitologia individual, amplia-se tornando-se no espaço simbólico comum a uma inteira colectividade. O refúgio do tempo histórico no qual uma colectividade inteira encontra escape. (…) Pode amar-se uma cidade, podem reconhecer-se nas suas casas e nas suas ruas as memórias mais remotas e secretas; mas apenas na hora da revolta a cidade é verdadeiramente sentida simultaneamente enquanto o “local da corte” e como a própria cidade: própria porque ao mesmo tempo minha e do outro; própria porque campo de uma batalha que se escolheu e que a<br>colectividade escolheu; própria porque se torna um espaço circunscrito no qual o tempo histórico foi suspenso e onde todo o acto vale por si próprio, nas suas consequências imediatas. Há uma maior apropriação da cidade fugindo ou avançando no alternar das<br>cargas do que brincando enquanto criança pelas suas ruas ou mais tarde passeando com uma rapariga. Na hora da revolta já não se está só na cidade.</em>\n  </p>\n\n  <p class=\"align-right\">\n    <strong>Furio Jesi</strong>, Spartakus: A simbologia da Revolta\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 15.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 15.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <strong>A Passarada #14</strong>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/Pagarao-2.png\" height=\"1325\" width=\"1157\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Pagarao-2-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Pagarao-2-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Pagarao-2-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Pagarao-2-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Pagarao-2-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Pagarao-2-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Tendas, muitas tendas, gente a dormir sestas tardias dentro e fora delas, à espera da madrugada, sem saber muito bem de quem são, porque não interessa, são de todas, elas não estão ali enquanto pequeno espaço privado de cada um mas enquanto espaço reservado à resistência . Uns aborrecem-se, outros riem e bebem e cantam, outros enchem balões, outros ultimam conspirações. Tricas e rivalidades dissolvem-se ante a certeza de que ali a pouco, a única coisa que vai contar é a coragem que conseguimos reconhecer umas nas outras. O nervoso miudinho torna-se a única língua franca, e piadas proscritas murmuram-se sem medo. As armaduras são engenhosas e patéticas, as faixas não dizem nada: não precisam, já foi tudo dito, agora estão ali para nos proteger. A informação chega a conta gotas e evapora-se como água do mar na pele de verão. Os rumores prosseguem, vai ser assim, vai ser assado, não se sabe, não vai acontecer, vai acontecer de certeza. Linha da frente, linha de trás. Lá longe, no outro lado da praça, uma mão cheia de burocratas, jornalistas e juristas discute outra vez o enquadramento do que se sabe estar por estar chegar. Ninguém lhes liga muito, muitos acabam por rumar a casa.Uma fronteira clara desenha-se ali: de um lado os agentes do sistema que nos querem aniquilar e os agentes do sistema que nos querem salvar, do outro, nós, essa plebe irrepresentável, irredutível, incomensurável com qualquer jogatana palaciana. Eles que brinquem aos estados, a nós interessa-nos apenas a luta e o que fazer quando ela chegar. Os três polícias chegam, já nos conhecem, já os conhecemos. Lêem as suas ameaças como uma hospedeira de bordo lê as recomendações de segurança. Ninguém quer saber. Assumimos a forma, a polícia chega, mudamos a forma. Somos simultaneamente uma tropa macaca, uma milícia de série B e as maiores amazonas que já pisaram a praça do Rossio. Carregam. Empurrões e confusão. Não cedemos, eles também não. Recuamos calmos, passo a passo, mudamos de praça, construímos barricadas. Não fugimos, não desertamos, todos juntos. Inimigas de anos cruzam braços e correm a trocar informações. Por trás de uma barricada somos todos uma insurreição qualquer. Recuamos, reagrupamos, cuidamos- nos, desaparecemos na noite. Amanhã continua, depois também - conseguimos fazer com que o ápice da luta seja um local de encontro e de coragem e não de medo e de atomização. Podem partir-nos a boca toda cada fim de semana mas isso já ninguém nos tira.\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/Confronto-2.png\" height=\"721\" width=\"1157\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Confronto-2-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Confronto-2-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Confronto-2-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Confronto-2-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Confronto-2-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/17/responsive/Confronto-2-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 14.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 14.pdf</a>\n  </p>\n\n  <p>\n    \n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <b>A Passarada #13</b>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/spider-man.png\" height=\"751\" width=\"1170\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/responsive/spider-man-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/responsive/spider-man-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/responsive/spider-man-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/responsive/spider-man-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/responsive/spider-man-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/16/responsive/spider-man-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Um camarada da América do Norte enviou este texto escrito exclusivamente para A<br>PASSARADA:\n  </p>\n\n  <p>\n    Anda um espectro pela Europa.\n  </p>\n\n  <p>\n    Esta é uma era de revoluções.\n  </p>\n\n  <p>\n    A palavra que hoje está na boca de todos é revolução. Pode parecer estranho. Mas há uma lógica por trás deste ímpeto.\n  </p>\n\n  <p>\n    As revoltas do ano passado levaram à queda de governos em países de quase todos os continentes. A vaga, que vem ganhando força há anos, rebenta agora nas costas da Europa e da Índia, e em breve chegará a outras potências mundiais. Só quando os movimentos revolucionários começarem a penetrar nas principais potências económicas e militares será possível ultrapassar os limites que as revoluções atingiram em todos os outros lugares.\n  </p>\n\n  <p>\n    Por razões óbvias, será muito mais difícil derrubar os governos de França ou da Índia do que os do Nepal ou de Madagáscar. Mas só depois de vaga após vaga de protestos, motins, greves, bloqueios e insurreições esbarrarem nos seus limites se tornará possível um salto de tigre para fora da pré-história. Não se sabe se as revoltas que agora acontecem por toda a parte levarão a uma rutura em algum lugar. Mas estas experiências tornarão claros os limites que os futuros movimentos revolucionários terão de ultrapassar. Por isso, vale a pena levar esta agitação tão longe quanto possível.\n  </p>\n\n  <p>\n    Uma geração sem futuro já não tem nada a perder.\n  </p>\n\n  <p>\n    A agitação, em toda a parte, é liderada por uma geração que sente não ter futuro nem nada a perder. O que há num nome? Muitas vezes, os nomes das gerações são bastante arbitrários. Aqui, o nome diz tudo. Geração Z. A última geração.\n  </p>\n\n  <p>\n    Na linha da frente e atrás das barricadas estão jovens de todas as classes e origens sociais, de todas as raças, etnias, géneros e situações legais. Não porque as suas condições sejam idênticas. Mas todos enfrentam o mesmo futuro ausente de proletarização e desespero. A geração mais nova é mais instruída, está mais endividada, tem menos oportunidades e está mais revoltada do que qualquer geração anterior.\n  </p>\n\n  <p>\n    Toda a gente sabe o que aí vem, porque já cá está. Ondas de calor. A subida das marés. A subida da dívida. O agravamento das condições de vida. Competir por empregos que não queremos nem vamos conseguir. Competir por um lugar em universidades que nos vão formar para carreiras que estão a desaparecer.\n  </p>\n\n  <p>\n    Os jovens, vivos e inquietos, são uma minoria na Europa, que já estava senil há meio século. Mas noutros lugares não é assim. A geração mais nova já é a maioria da população no Sul da Ásia e em partes do Sudeste Asiático e de África. Centenas de milhões de jovens estão a chegar à idade adulta num mundo que nada tem para lhes oferecer. (Excluídos da economia e ignorados pelo governo, não lhes resta outra escolha senão tentar virar tudo do avesso.) Esta situação é explosiva. Mas é apenas o lugar onde uma condição universal se encontra mais concentrada. Uma vez iniciada a explosão, não havia qualquer hipótese de ser contida.\n  </p>\n\n  <p>\n    O peso das gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    Os jovens e desesperados enfrentam um mundo exausto, governado pelos envelhecidos e senis. Mas estas revoltas não são um conflito geracional. Os jovens não estão sozinhos na sua luta.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    As lutas estudantis dos últimos anos foram o sinal de um movimento de contestação mais geral, que agora se alastra. Há aliados em toda a parte. O Bangladesh, seguido do Nepal, mostrou que, nas condições certas, as lutas estudantis podem desencadear uma explosão social muito mais ampla. É isso que começa agora a acontecer em toda a parte.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    A Geração Z tem sido o elemento mais dinâmico e consistente destas revoltas globais. Mas os estudantes e os jovens são apenas uma parte de um mosaico mais vasto.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    Do mesmo modo, as lutas estudantis começam a fundir-se ou a coincidir com lutas que têm origem noutras partes da sociedade. Os bloqueios estudantis que se espalharam por toda a França e pelo Quénia foram precedidos por greves de professores. Os grandes acampamentos em Madrid e Barcelona começaram em solidariedade com uma idosa despejada da sua casa. Os bloqueios de camionistas e agricultores no sul de Itália coincidem com motins no norte.\n  </p>\n\n  <p>\n    Uma só faísca pode incendiar toda a pradaria.\n  </p>\n\n  <p>\n    As revoltas deste ano tenderam a ocorrer em lugares onde o aumento do custo de vida tornou as condições explosivas. Mas toda a explosão precisa de um detonador, e este pode não estar diretamente ligado à situação económica. Houve vários detonadores. As condições nas escolas. Os exames de acesso ao ensino superior. Os cadernos eleitorais. Incêndios florestais. Despejos. Um projeto para construir um resort de luxo numa praia privada.\n  </p>\n\n  <p>\n    No passado, as revoltas eram muitas vezes uma resposta à ação do Estado. Uma nova lei. Medidas de austeridade. O fim de subsídios. A violência policial. Este ano, pelo contrário, os protestos parecem responder às condições gerais, sem esperar por um detonador vindo do Estado.\n  </p>\n\n  <p>\n    As revoltas começam com as reivindicações de um grupo social específico. Mas, quando ganham força e arrastam uma base social mais ampla, ultrapassam as reivindicações iniciais, seja qual for a coisa concreta que as pôs em marcha. Em breve, estes movimentos começam a pôr tudo em causa. A turbulência económica torna-se então o pano de fundo de uma luta contra o Estado.\n  </p>\n\n  <p>\n    A partir daqui, as coisas tendem a seguir um de dois caminhos. Por vezes, o aumento do custo de vida, que foi a condição para que os protestos se tornassem uma revolta de massas, passa a ser visto por muitos participantes e observadores como aquilo de que o movimento trata. Outras vezes, onde um homem forte autoritário é o fator determinante da vida quotidiana, as lutas desencadeadas pela economia tornam-se sobretudo políticas.\n  </p>\n\n  <p>\n    Quando o desespero acaba, começa a tática.\n  </p>\n\n  <p>\n    As vagas de luta surgem muitas vezes com uma nova tática. É notável que não haja nenhuma inovação particular que constitua a ponta de lança dos acontecimentos. Nenhuma tática dominante parece dar consistência à multiplicidade de movimentos de protesto e revoltas em curso. Embora tenha havido, claro, inovações, nenhuma foi amplamente reproduzida em diferentes contextos.\n  </p>\n\n  <p>\n    Este ano, pelo contrário, parece que todas as táticas do passado recente reapareceram. Há grandes acampamentos em Madrid, Lisboa e Nova Deli, que lembram o movimento das praças. Espanha e Portugal declararam greves gerais. Todos os sábados, em França, há manifestações, ou “Atos”, que lembram os Coletes Amarelos. Mais uma vez há barricadas e bloqueios. Há até paralisações de portos. As táticas e o equipamento da “linha da frente” parecem estar em toda a parte.\n  </p>\n\n  <p>\n    Mas o recurso a táticas disruptivas está a tornar-se mais generalizado e intenso. As revoltas da última década culminaram muitas vezes em tentativas dos manifestantes de forçar a entrada nos centros do poder. Agora, talvez seja mais provável que os incendeiem.)\n  </p>\n\n  <p>\n    Cada vez que as pessoas saem à rua, redescobre-se uma verdade simples. Os bloqueios e as barricadas refletem uma intuição partilhada: para terem algum poder, os protestos têm de perturbar a vida quotidiana da cidade. Mas, quando isso começa, e à medida que se alastra, abrem-se novas possibilidades.\n  </p>\n\n  <p>\n    No espaço que se abre, conseguimos encontrar-nos, organizar-nos e tomar a iniciativa. Multiplicam- se formas de partilha e de estar juntos para lá de todas as misérias da economia e do seu mundo. Partilhar um tempo e uma cadência, reunindo-nos no mesmo lugar todas as noites ou todas as semanas, cria impulso e consistência. Cria algo por que esperar e em torno do qual planear.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    Desta forma, as ocupações e os “Atos” tornam possível uma auto-organização muito mais ampla. Perder esse espaço, como mostrou a experiência recente em Jantar Mantar, na Índia, torna muito mais difícil recuperar o impulso ou tomar a iniciativa. Mas as ocupações e as ações podem tornar-se rituais extenuantes, de rendimento decrescente. A tarefa, como sempre, é surpreender o inimigo, manter a iniciativa e criar novas formas de continuar a avançar.<br>\n  </p>\n\n  <p class=\"align-right\">\n    <strong>As Amigas Internacionais</strong>\n  </p>\n\n    <h2 id=\"como-habitar-a-catastrofe\" class=\"align-center\">\n      COMO HABITAR A CATÁSTROFE\n    </h2>\n\n  <p>\n    A velocidade vertiginosa a que tudo tem acontecido não nos dispensa de formular algumas perguntas elementares: porque é que, ao fim de anos de mobilização em torno do direito à habitação, a coisa ganhou uma forma tão expressiva neste outono estival de 2026? Como é que as acampadas passaram subitamente de evento marginal e vagamente exótico a facto político central e tema de conversa generalizada? Porquê o apoio, ou, pelo menos, a vaga simpatia, de setores tão amplos e de vozes tão inesperadas, incluindo aqui o tom genericamente favorável da cobertura mediática? Até onde e até quando irá esse apoio? Que respostas pode o Estado ensaiar para lidar com este desafio? Quais os limites e possibilidades deste movimento?\n  </p>\n\n  <p>\n    Das respostas, mesmo se tateantes e provisórias, que arriscarmos a estas perguntas dependem muitas das decisões de ordem tática e estratégica com que nos confrontamos. Por um lado, as acampadas ocorrem em sincronia com outros protestos em diferentes países, a começar pelo Estado espanhol, daí decorrendo a óbvia intuição de que o momento chegou para fazer algo qualitativamente diferente. Adicionalmente, a memória recente sugere a possibilidade de estarmos, agora como em 2011, a assistir ao início de um novo ciclo de protesto, do qual o gesto de ocupação das praças é apenas o preâmbulo. E uma vez que os problemas são hoje tão sérios como há quinze anos, todas as condições se encontravam reunidas para nos voltarmos a encontrar. Tanto bastaria para atrair a atenção mediática.\n  </p>\n\n  <p>\n    Por outro lado, muitas coisas mudaram desde então, desde logo a profundidade com que o espaço urbano se viu reconfigurado pelos mecanismos de valorização e acumulação de capital. O ciclo de lutas contra a austeridade (2010-2014) teve lugar num contexto de desemprego, recessão e cortes orçamentais, ao passo que o momento atual é de expansão económica, impulsionada pela dupla bolha imobiliária e da inteligência artificial. Não estamos confrontados com um momento de interrupção momentânea de um mecanismo virtuoso de crescimento e prosperidade partilhada.\n  </p>\n\n  <p>\n    Pelo contrário, torna-se cada vez mais evidente que o mecanismo está a funcionar em pleno e produz exatamente os resultados para os quais foi desenhado. Lisboa e Porto não estão em crise. Só não são para nós. Isso explica porventura que a resposta ao protesto tenha evoluído rapidamente, a partir do momento em que se tornou claro que não bastaria uma carga policial para dissuadir as pessoas de ocuparem as praças, para a ideia de que é preciso construir mais casas.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    Nesse sentido, a reivindicação inicial do direito à habitação, qualquer habitação, revela-se plenamente digerível pela lógica de gestão do sistema. E é por isso que tanto a cobertura mediática como o tom da maioria dos comentadores passou a sublinhar a legitimidade dos protestos, deixando isolado o governo e os seus porta-vozes oficiosos. Mas a situação ao nível da habitação não depende apenas da cor do governo do dia. Resulta da ação de um poderoso bloco de interesses financeiros e imobiliários, que se converteu no verdadeiro motor da economia portuguesa e controla a generalidade da comunicação social, determinado dessa forma o tom do debate político. Convém por isso não confundir a relativa inflexão dos comentários e declarações públicas com uma vitória. Trata-se de uma concessão fugaz e que, no limite, procura meramente ganhar espaço de manobra para nos remeter novamente para a situação de impotência e atomização em que estávamos antes de tudo isto começar. A distinção que se começa a delinear, entre manifestantes bons e infiltrados radicais e violentos, é um bom sinal do que aí vem.\n  </p>\n\n  <p>\n    Ao defender a possibilidade de ocupar a praça nos nossos próprios termos, estamos apenas a conquistar o espaço e o tempo para definir em conjunto o percurso que temos pela frente. O contraste entre, por um lado, a fragilidade das nossas tendas, a disposição desordenada dos nossos corpos, o volume quase impercetível das nossas vozes, e, por outro, o incessante ruído da circulação metropolitana, a eminente montagem de um bazar de natal e, com ela, o retorno da praça à condição de postal turístico, é um ponto de partida incontornável para as nossas discussões. Não basta a habitação, se nos tirarem a cidade. E não basta a cidade se destruírem tudo à sua volta. O Rossio é apenas o sítio onde nos encontramos para aprender a habitar a catástrofe.\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 13.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 13.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <strong>A Passarada #12</strong>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/Ca-estamos-2.jpg\" height=\"493\" width=\"1200\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Ca-estamos-2-xs.jpg 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Ca-estamos-2-sm.jpg 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Ca-estamos-2-md.jpg 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Ca-estamos-2-lg.jpg 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Ca-estamos-2-xl.jpg 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Ca-estamos-2-2xl.jpg 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    No último sábado enchemos a avenida e descemos para o Rossio com uma energia que não se via há muito. Houve quem falasse em 25 mil pessoas numa manif convocada por um espectro difuso, para lá da esquerda parlamentar e da sua área de influência, mesmo que também presente.\n  </p>\n\n  <p>\n    Conhecemos o desfecho dessa noite: cabeças rachadas à bastonada, cães atiçados, balas de borracha disparadas, tasers no Porto, motas a caçar manifestantes até à Graça. Uma repressão coordenada a nível nacional que diz tanto da verdadeira face de quem nos governa como do medo que têm sentido com a nossa presença na rua, onde temos criado e cimentado novos encontros, experimentando novas formas, aprendizagens e conspirações noite fora. O que os assusta verdadeiramente é a hipótese de a nossa existência deixar de ser marcada pelos ritmos e fluxos que reproduzem o capital, e de estabelecermos relações e formas de vida que permitam transformar a cidade em algo diferente de uma multidão de estranhos.\n  </p>\n\n  <p>\n    Acima de tudo, tem sido demonstrada uma força por parte do nosso campo político que, há um mês, poucas achariam possível. Esta dinâmica tem-se construído numa presença na rua que se tornou evidente na manif de dia 24 e não mostra sinais de esmorecer – estamos há 2 semanas a meter os pés na rua, sem parar! –, como bem o atestou a manif desta terça-feira em frente à Assembleia da República.\n  </p>\n\n  <p>\n    Este sábado regressamos à rua e à promessa de novas tendas no Rossio com toda esta bagagem. Por um lado, uma violência policial que parecia inimaginável mas que é a regra nos bairros da metrópole, onde tem sido testada, e se estende agora ao resto do corpo social, ao mesmo tempo que a decomposição do capitalismo se acentua. Por outro, voltamos também com uma mistura de determinação e fúria, mesmo que com tonalidades diferentes entre subjetividades e perspectivas.\n  </p>\n\n  <p>\n    Nos últimos dias, para quem esteve na praça e procurou escutar, tornou-se claro que se multiplicaram os balanços, as partilhas, as reuniões – públicas, privadas, clandestinas, informais, de que forma for. Toda a gente se sentiu convocada a defender aquele espaço, a afirmar que a sua existência não está confinada a reger-se pela ordem e pelo capital, e a expressar o desejo de influenciar o futuro da acampada.&nbsp;Discutiu-se sobre como nos organizamos, sobre o que fazemos se sábado correr bem ou mal, sobre como nos preparamos.\n  </p>\n\n    <h2 id=\"14-propostas-para-considerar-ate-amanha\" class=\"align-center\">\n      14 PROPOSTAS PARA CONSIDERAR ATÉ AMANHÃ\n    </h2>\n\n  <p>\n    – A catástrofe é que tudo assim continue, porque o poder não está apenas onde se tomam decisões horrendas, mas onde quer que o discurso remova o corpo, a raiva, o grito, o gesto de viver –<br><br>Depois de uma assembleia que voltou a andar às voltas de si mesma para tentar pôr ordem a um organismo complexo e indomável, sobraram ainda mais perguntas e 14 propostas a considerar, que serão votadas hoje. Não obstante, nas periferias da roda da democracia, algumas pessoas sentam-se para partilhar o jantar numa manta com as companheiras, outras compõem uma canção que já andava na ponta da língua, outras treinam a subida à estátua para lhe amarrar um novo cartaz, outras tantas dão conta da preparação de materiais e táticas para alinhavar a manifestação convocada para amanhã, outras tantas empurram a uma viagem no tempo. <br><br>À medida do avanço da noite, o murmúrio da praça clama a urgência da interrupção. <br><br>Hoje, 1871, o dia começou com o alarido de infindos relógios espatifados. Organizadas contra o tempo dos esquecidos, um grupo de companheiras partiu todos os relógios da cidade, primeiro o da praça, depois os das igrejas, das estações, dos palacetes e centros comerciais. Os ponteiros tombaram como soldados vencidos e o tempo perdeu-se no caminho. Agora que ninguém sabe dizer que horas são, talvez se inaugure a hora dos que nunca a tiveram e se possa propelir um novo início. Nas ruas não tocam os sinos que organizavam anteriormente a vida, nem o tic-tac dá rumo ao dia de trabalho, nem há minutos que separem as pessoas dos seus desejos. Os relógios jazem destruídos e a cidade descobre a vertigem de atacar o seu maior serviço de ordem, de interromper a marcha inevitável dos vencedores. O tempo homogéneo, vazio, aquele que tudo mede e tudo transforma em mercadoria, está agora exposto, ferido de morte, e a história pode avançar ao ritmo que nos apetecer.<br><br>Hoje, 1968, aproveitando a greve dos trabalhadores da recolha do lixo, um dos grupos de afinidade composto nos últimos dias, recolheu todo o refugo entre a Lapa e a Graça e transportou-o até às portas da AR. Despejaram-no à entrada e chamaram-lhe uma troca cultural: lixo por lixo. De trás da escadaria e das portas encerradas de entrada e dos gabinetes, o templo da fantochada democrática viu-se perante a materialização daquilo que produz diariamente e, desta feita, sem escapatória possível. Contra a sua reprodução devidamente iluminada, patrocinada e protegida, o grafismo realista da matéria que ilustra os bairros e arrabaldes, onde a vida se acumula entre rendas impossíveis, despejos e geografias de detritos. Foi preciso devolver-lhes aquilo que, até agora, tinham habilmente aprendido a esconder.<br><br>Hoje, 1966, ao início da tarde, o grupo de trabalho de programação decidiu que a rua não precisava de autorização para existir. Levaram para o espaço público marionetas, molduras, objetos absurdos e pequenos dispositivos teatrais. A cidade tornou-se o palco, os transeuntes, espectadores e a polícia, sem o saber, recebeu de imediato um papel na representação. Quando empunharam o bloquinho de multas por obstrução da via pública, toda aquela gente irrompe em palavras de ordem: público quem? público o quê? só quem não quer é que não vê. Foi quando começaram a chover milhares de páginas rasgadas de dicionários com a palavra público reinventada, e a cidade desmoronou-se em gargalhadas. Quem por ali passava decidiu pousar as carteiras, descalçar os sapatos e juntar-se à tomada da rua, jogando e inventando coletivamente, que é o que acontece quando se leva a sério a brincadeira. <br><br>Hoje, 2026, aproveitando a decisão assembleária de interromper a cantina popular por um dia, para que as companheiras tivessem tempo para outras missões, as cozinheiras da acampada aprovam o exproprio das arcas de enxoval das casas de todas as avós. O alvo: lençóis. Aí para o fim da tarde, regressaram à praça, vindas de todos os cantos da cidade, com pilhas de enxergas e bons linhos. Sacaram das tesouras para lhes rasgarem dois buraquinhos à altura dos olhos, enquanto os redecoravam com tinta spray. Ao centro de todos os panos, uma foice e um martelo graffitados esclarecem o intento. Enfim, os espectros que pairavam sobre a Europa decidem formar fileira. <br><br>Hoje, 1972, às primeiras horas do dia, todas as rádios FM da cidade começaram a atrofiar ao mesmo tempo. A tundra cortou-lhes o pio e fez passar em loop um convite: que ninguém hoje se levante da cama, fiquem deitados com alguém, a fabricar instrumentos musicais e máquinas de guerra. <br><br>Amanhã, ao cair da noite, poderemos dizer que o poder não calculou a maravilhosa indicação que nos deu quando definiu os termos desta caça absurda à nossa imaginação. Um sábado como tantos outros que vieram antes dele, já está escuro. A praça da figueira e o rossio estão cobertas de confettis, cartuchos e destroços. A bófia foi-se embora. Respira-se cansaço, raiva e alegria. Um perfume de rebelião depois de anos de submissão. Os rostos das companheiras sorriem, todos têm olhos vermelhos devido ao gás lacrimogéneo. Rodam garrafas de bom vinho sacadas por aí. Champagne, ganzas e molotov. Um piano toca Chopin, está no meio da estrada, retirado de um bar, logo atrás de uma barricada. Hoje ninguém manda. Amanhã? Amanhã chegarão com os tanques. Seremos novamente expulsos. Mas hoje, por algumas horas, esta terra é livre. Chopin. Vinho. Raiva e gozo.\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/Barrinete.jpg\" height=\"750\" width=\"1779\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Barrinete-xs.jpg 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Barrinete-sm.jpg 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Barrinete-md.jpg 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Barrinete-lg.jpg 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Barrinete-xl.jpg 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/15/responsive/Barrinete-2xl.jpg 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n    <h2 id=\"outra-carta-sobre-o-silencio\" class=\"align-center\">\n      OUTRA CARTA SOBRE O SILÊNCIO\n    </h2>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    Sean Bonney, 30 de Agosto, 2011<br>Lisboa, 30 de Outubro de 2026\n  </p>\n\n  <p>\n    Continua a ser difícil falar de poemas nestas circunstâncias. O tempo brinca às suas repetições e Lisboa é a mesma navalha onde a calma incandescente nos mantém do lado de fora do seu perímetro. É incrível como a normalidade aguarda pacientemente a suspensão. Há um batalhão de gente a operar, na sombra, a iridescência, de modo que os dias se compõem, precisamente, enquanto teste à tese de Aimé Césaire: “um meio para atingir o infinito.”\n  </p>\n\n  <p>\n    Somos mais do mesmo, a mesma carne para canhão de que ninguém se lembrará e, ainda assim, estamos acima das notas de rodapé a que se reduzirão todos os nossos representantes políticos. Torna-se evidente como é fácil mandar isto tudo à fava, sim, “as palavras mágicas são encosta-te à parede filho da puta”. Mas não é fácil, dizias, a maior parte de nós volta ao trabalho de manhã para continuar a dar corda a esta forma de funcionamento do mundo, e tudo avança devagar, não é fácil concentrarmo-nos com todas estas rusgas policiais, espancamentos punitivos, fogos retaliatórios. “Não há, desgraçadamente, progresso! Não, são tudo reedições vulgares, repetições. Tal como em edições de mundos passados, assim as dos mundos futuros. Apenas o capítulo das bifurcações permanece aberto à esperança.”\n  </p>\n\n  <p>\n    Seria exagero dizer que a geometria da cidade se transformou, mas está a ser sujeita a uma torção brutal. Ganhou em dimensão, algumas coisas estão agora irreconhecíveis, outras ganharam nitidez. A nossa mesa estratégica está encavalitada sobre os joelhos, o traçado rasca atira ao definitivo. Que falta nos faz também a matemática, para explicar exatamente como é que se acaba uma noite de motim a costurar a cara de um companheiro; para descrever ponto a ponto o maravilhamento de um miúdo a descobrir um centro social, por exemplo assim: 1) chega esbaforido de fugir à bófia e entra numa garagem; 2) a malta está sentada, algumas a limpar a cara, outras a arranjar comida, outras a recuperar o fôlego; 3) alguém lhe dá uma maçã e ele pergunta se está lavadinha; 4) esfrega os olhos para dizer “não fazia ideia que existiam sítios assim.” Sim, é certo que não é isto que vai parar às revistas literárias, e sim, havia aquela hipótese da poesia se transformar dialeticamente na voz da multidão, mas, se não for isso, estamos fodidas, e vamos acabar a habitar um silêncio atroz de 2 metros quadrados.\n  </p>\n\n  <p>\n    Era agora que ela, a poesia, saía do seu coro conformista e vinha inundar tudo de humor, que é o mesmo que dizer que vinha latir para o meio de nós, dar corpo ao cantarolar mortiço das frases feitas. Porque, acredita, a violência policial é o conteúdo de toda a arte oficialmente sancionada.\n  </p>\n\n  <p>\n    Os últimos quartos que ainda há para arrendar nesta cidade situam-se no centro do aparato que a bófia nos trouxe, na balística, dentro dos fatos e atrás dos escudos. Recusamo-nos a mudar para lá. Recusamo-nos a continuar a falar de prosódia, temos a ferida aberta e preferimos viver dentro dela, pelo menos por enquanto.\n  </p>\n\n  <p>\n    Que esta não seja a última carta que recebemos da tua parte, estamos aqui aos berros a chamar-te de volta. Queremos dar corpo à descrição que Larry Neal fez dos motins daquela vez, “o processo para lançar mão à nossa história coletiva, de tomar controlo dela.” Queremos abrir a claraboia do Forte de Taureau, em 1871, em 2026, para espreitar a ascensão dos cometas à mesa dos astros maiores.\n  </p>\n\n  <p>\n    Estes nossos ferimentos não foram auto-infligidos.\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 12.pdf\" target=\"_blank\">A passarada 12.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <strong>A Passarada #11</strong>\n  </p>\n\n  <p>\n    Ao décimo terceiro dia de acampada, a maré popular permanece alta. Apesar do dispositivo policial draconiano mobilizado na terça feira para meter medo, milhares acorreram à assembleia da república. E um protesto que, noutro momento, não levaria à rua mais de 200 pessoas como forma de fazer uma ou duas notícias nos media, transformou-se em mais uma afirmação clara de que o movimento está na rua em massa e não arreda pé.\n  </p>\n\n  <p>\n    Mas entre sussurros, olhares cúmplices e linhas de conversa a questão surge com antecipação: o que vem a seguir e como manter esta força acesa e multiplicá-la?\n  </p>\n\n  <p>\n    Melhor ou pior, a acampada tem-se movido em unidade desde o início. Há tensões e discórdias, há quem queira cristalizar esta unidade por decreto, assumindo uma coordenação, e quem puxe por uma horizontalidade purista, desconfiando de qualquer forma de delegação ou coordenação. Mas o espaço onde estas ideias são disputadas ainda não se partiu. É possível que essa quebra aconteça. Não devemos encará-la como uma derrota, mas sim como uma progressão natural da ebulição de uma sopa primordial da qual se desenvolvem organismos diversos para popular um ecossistema dinâmico do movimento. A questão então não é como manter o movimento uno, mas<br>sim como permitir que a diversidade surja a favor do movimento e não apenas de cada<br>organismo que nele se move.\n  </p>\n\n  <p>\n    Esta consciência do ecossistema em que cada um de nós se insere e da necessidade de o alimentar, combatendo um certo impulso autofágico, não deve, contudo, impedir que cada organismo intervenha com firmeza, sob a pena de ficar de longe a ver o movimento passar. É necessário conservar e expandir o conflito em curso e é necessário imbuir o movimento de uma visão que vá para além da táctica e alimente um horizonte estratégico e político. Afinal de contas, a luta não será ganha apenas com o aumento da habitação pública ou muito menos com a reversão da lei do arrendamento. A guerra em curso abarca todas as dimensões da nossa vida – da casa ao pão, do genocídio e da guerra ao calor que nos sufoca – e deve crescer no sentido<br>de encarar e enfrentar esse sistema como um todo.\n  </p>\n\n  <p>\n    Para lá do pântano das discussões intermináveis sobre organização, para lá das assembleias vs plenários de delegados, urge discutir propostas políticas e estratégicas para os próximos dias, sob pena de deixar que as tendas desapareçam e que o movimento esmoreça em mais uma manifestação. Será que isto só é possível com uma liderança forte e centralizada que dite a direcção do movimento? Achamos que não. Aquilo que levou ao presente levantamento não foi a existência de um partido ou colectivo com uma visão clara e determinada que tenha decidido fazer uma acampada. Pelo contrário, os grupos organizados vacilaram, pensaram que as condições não estavam lá e que era necessário organizar primeiro as bases para permitir uma mobilização alargada. Esqueciam-se que, por vezes, esta lógica inverte-se e que o que é preciso é atenção e agilidade para ler o momento e agir, criando condições para que a raiva se alastre e incendeie os ânimos de pessoas que antes não estavam disponíveis para se organizarem mas que agora estão.\n  </p>\n\n  <p>\n    Não será o ingrediente secreto para o movimento ter explodido um pouco de anarquia e um pouco menos de sujeição às \"linhas do coletivo\"? Não desmerecemos de todo as organizações existentes nem a importância que estas organizações e os seus membros têm tido em fazer correr décadas em duas semanas. Mas a forma como se têm diluído no meio de tantos outros grupos e subjectividades, abdicando um pouco da sua imagem de marca, também poderá ser um motivo para tanta gente assumir este movimento como seu e não apenas como algo que outros inventaram e que aceitam seguir. Então deixemo-nos embaralhar no fluxo da história e que novas ideias brotem deste processo.\n  </p>\n\n  <p>\n    Mas, seja como coletivos, grupos de afinidade ou com a voz de cada um, precisamos de andar para a frente. Se não cantamos todos a mesma nota, tentemos criar harmonias que façam a nossa cantiga crescer até se tornar mortífera para o capital. No ecossistema que nos rodeia não falta quem se queira mover da mesma forma que nós. Aprofundemos portanto ideias, façamos propostas e levemos connosco quem quiser ir. Afinal de contas será mais rico um espaço com uma liderança una ou com vários organismos partilhando um objectivo comum mas capazes de tomar iniciativa de forma<br>autónoma?\n  </p>\n\n    <h2 id=\"uma-outra-violencia\" class=\"align-center\">\n      UMA OUTRA VIOLÊNCIA\n    </h2>\n\n  <p>\n    As sucessivas cargas policiais de que as várias acampadas foram alvo fizeram ressurgir a questão da violência, não apenas da sua violência, mas do modo com nos sujeitamos, ou não, a ela. A partir do momento em que o monopólio da violência por parte do estado deixa de ser uma forma de proteção dos cidadãos para se tornar, simultaneamente, numa forma de controle e de espectáculo mediático, torna-se óbvio que a integridade física e psíquica dos participantes na acampada é um tema que apenas a nós importa. Não aceitamos ser carne para canhão nem muito menos que a violência sobre os nossos corpos se torne em propaganda política de parte do mais medíocre e mentecapto dos governos.\n  </p>\n\n  <p>\n    Multiplicam-se explicações para o que aconteceu. Um governo acossado e lerdo, uma PSP infiltrada pela extrema-direita, um MAI brutalizado pela sua própria vaidade e inépcia, etc. Torna-se fácil perder o contexto histórico e político: não obstante os seus agentes concretos (o PM, o MAI, a PSP), é a crise abstracta de todo um sistema global de governança que se vê obrigado a endurecer os mecanismos de controle social que enquadra os eventos recentes. A violência que assistimos não é a excepção, é uma nova regra. Os próximos governos, de esquerda ou de direita, farão uso semelhante dela, independentemente de quão escandalizados estejam agora. A queda geral das taxas de lucro, a estagnação económica, a pressão geopolítica, a crise climática, a militarização evidente no horizonte, etc: tudo isto nos vai ser enfiando pela goela abaixo à chapada, Montenegro ou não Montenegro, Neves ou não Neves.\n  </p>\n\n  <p>\n    Tal como qualquer outra questão séria, a questão da violência não é simples. A redução do debate a caricaturas mútuas - o “pacifismo ingénuo” e a “destruição pela destruição” - diz mais sobre quem as constrói do que sobre as posições em si, revelando pouco mais do que tacanhez ideológica.\n  </p>\n\n  <p>\n    Correto, não temos a força para ganhar um confronto físico com a polícia. Não é sequer claro que ter essa força seja, em si, por si, um objectivo político. Querer fazer uma revolução é diferente de querer ter um exército. Querer desenvolver formas de autonomia defensiva é diferente de militarizar o movimento. Odiar o sistema não significa odiar os seus esbirros. ACAB, sempre, mas bastardos somos todos.\n  </p>\n\n  <p>\n    Correcto, também - a imagem mediática do nosso movimento caminha sobre uma corda de equilibrista, onde o circo inteiro reza para que tropecemos. O capital de escândalo ante a violência sofrida joga a nosso favor. O espectáculo adora vitimas, o catolicismo hegemónico, real ou laicizado, ama comover-se com gente em sofrimento. Ante qualquer reacção a toda essa comoção vai transformar-se em ódio. “Perderam a razão” dirão quatrocentos cinquenta e sete comentadores em uníssono horas a fio em directo na TV. O ressentimento de todos aqueles que gostariam de lutar mas que não têm coragem transformar-se-à num ódio implacável a todos os que perdemos o medo.\n  </p>\n\n  <p>\n    Mas o debate não acaba aí.\n  </p>\n\n  <p>\n    Assumir o vitimismo enquanto principal estratégia de comunicação é suicídio político. Foi esse o erro que ditou o eclipse quase total do movimento pela habitação anterior à acampada. Ninguém gosta de ver pessoas a levar na boca, mas ninguém tem paciência para a choraminguice eterna. Simultaneamente, capitular ante o “senso comum” vigente é assumir a derrota à partida. A tirania desse “senso comum” - essa ideia de que “as pessoas” são um sujeito político e não uma fantasmagoria - é apenas um dispositivo de censura e manipulação. A sujeição ao discurso mediático é a principal razão da anemia dos movimentos sociais em Portugal. Se conseguimos finalmente romper esse colete de forças invisível então urge evitar, por todos os meios, regressar a ele.\n  </p>\n\n  <p>\n    Ao mesmo tempo, a escolha não é entre evitar o confronto com a polícia ou a sujeição nua à sua brutalidade. A polícia é a expressão concreta da violência do estado, mas essa violência é difusa. Todos reconhecemos, hoje, que a violência é também estrutural. Revela-se nas instituições, nas leis, nas formas de governanças, na burocracia, etc. Mas onde se torna mais complicado de a reconhecer é que essa violência é também ambiental, no sentido em que o próprio meio onde existimos (as ruas, as casas, as estradas, os escritórios, os consultórios e as escolas mas sobretudo OS ECRÃS) são, em si, meios de uma brutalização silenciosa e permanente. Todos esses dispositivos directos e indirectos protegem “a ordem”. O que é a ordem? A ordem são os fluxos de capital, as relações sociais de produção e as formas de controle social. A ordem está em todo o lado, não apenas ali a dois metros do cordão policial. O que quer isso dizer? Que à repressão concreta dos bastões da polícia deve responder uma resistência difusa que consiga actuar dentro desses dispositivos estruturais e ambientais do domínio do capital. É aí, no devir ingovernável da metrópole, que David vence Golias.\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/punk.png\" height=\"807\" width=\"1170\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/responsive/punk-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/responsive/punk-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/responsive/punk-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/responsive/punk-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/responsive/punk-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/14/responsive/punk-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    “O que testemunhámos desde 2008 é um aumento contínuo daquilo que Asef Bayat descreveu como “não-movimentos”: «a ação coletiva de atores dispersos e desorganizados». Estes não-movimentos não são, em sentido algum, revolucionários em si mesmos. Aproximam-se mais do que Camatte chamou recentemente «revoltas passivas»: expressões subjetivas da desordem objetiva do nosso tempo. Refletem sobretudo a crescente deslegitimação da política num contexto de estagnação e austeridade persistentes. É a combinação de não-movimentos em constante crescimento, envolvendo um número de pessoas sem precedentes, com o declínio da legitimidade democrática, que nos permite descrever a tendência da nossa época como a produção de revolucionários sem revolução. (...) os não-movimentos apontam para o núcleo disruptivo da nossa época: o facto de a estagnação capitalista implicar uma crise da representação política enquanto tal e, portanto, o fim dos movimentos políticos no sentido clássico. (...) Os não-movimentos (...) não conseguem constituir um povo e raramente chegam sequer a articular reivindicações políticas ou positivas claras. Ou então produzem uma torrente interminável de reivindicações parciais e por vezes contraditórias — assemelhando-se assim a uma hidra cujos múltiplos apelos são quase impossíveis de satisfazer, mas cuja vida pode ser curta e violenta. (…) [estes] incorporam largas faixas do proletariado, bem como elementos da classe média em mobilidade descendente, muitos esperam de facto constituir-se como um novo sujeito. Por vezes associam-se a partidos, sindicatos e outras organizações que pertenceram outrora ao mundo dos movimentos e das ideologias, mas que hoje funcionam sobretudo como um estranho conjunto de subculturas. (…) Como Gilles Dauvé observou a propósito dos Coletes Amarelos, os não-movimentos tendem a só conseguir mobilizar-se enquanto turba, perturbando o status quo. Reformulam constituições, derrubam governos e forçam presidentes e primeiros-ministros a demitir-se”.<br>\n  </p>\n\n  <p class=\"align-right\">\n    <b>Endnotes</b>, Onward Barbarians.\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 11.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 11.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <b>A Passarada #10</b>\n  </p>\n\n  <p>\n    <i>Em 2013, as Edições Antipáticas (editora entretanto extinta) publicaram um balanço sobre o movimento anti-austeridade do biénio quente de 2011/2012 chamado “Sobre a Passagem de Alguns Milhares de pessoas por um Breve Período de Tempo”. O texto dedicava alguns parágrafos à primeira acampada do Rossio, que aqui reproduzimos, não presumindo que se aplique à actual acampada, mas para que se note também o que mudou na década que passou. A área extraparlamentar, na sua multiplicidade, é hoje dotada de um património de discussão e experiência imensamente mais rico. A questão, no entanto, continua a ser : o que conseguimos fazer com essa experiência e inteligência comum?</i>\n  </p>\n\n    <h6 id=\"rossio\" class=\"align-center\">\n      Rossio\n    </h6>\n\n  <p>\n    No final de Maio de 2011 e fortemente inspirada pelas ocupações de praças no Estado espanhol, iniciadas a 15 de Maio, começa a ocupação da Praça do Rossio em Lisboa. É o tempo do movimento Democracia Real Ya e do advento dos Indignados em vários países, sobretudo na Europa. Contrariamente às imagens que chegaram de várias cidades de todo o mundo, a ocupação do Rossio não conseguiu criar a cidade autónoma necessária – essa multiplicidade de pontos de encontro, essa ocupação do espaço simultaneamente descentralizada e orgânica, essa presença em tudo contrária à normal organização do território e da vida quotidiana. Noutros lados, as acampadas representaram momentos novos, mas que construíam em cima do que havia: em Barcelona e Madrid, sobre um forte movimento social que no momento da ocupação tinha uma ideia bastante clara do que havia a fazer de um ponto de vista prático (levantar infraestruturas, multiplicar os espaços, criar autonomia); nos Estados Unidos, onde a inexistência de uma “grande” Esquerda institucional deu lugar a outras formas de sociabilidade política, numerosas mas invisíveis, organizadas enquanto “sociedade civil” ou enquanto colectivos informais. Em Portugal, onde a Esquerda ainda se define principalmente pelo que diz, pelos discursos que elabora, por uma disputa de público, tornou-se lógico que a ocupação do espaço assumisse a mesma forma teatral: entre a disputa do palco e a assistência, mais ou menos entusiasmada, aos discursos. O principal problema no Rossio foi concentrar as energias na manutenção de uma assembleia popular quando o menos interessante do que lá se passava era precisamente esse momento, oscilante entre o voluntarismo naïve hiperactivista e os discursos inflamados ensaiados em frente ao espelho.\n  </p>\n\n  <p>\n    Um dos outros problemas surgidos na acampada foi a tentativa de imposição de um sentido de urgência por parte de alguns dos presentes. A urgência adequa-se ao ritmo da política institucional e favorece o controlo vanguardista ou partidário, mas é avessa ao processo de maturação que se impunha em virtude das diversas sensibilidades ali presentes. A urgência molda-se bem aos campos de uma agenda, mas não ao presente e ao futuro que ali se construía. Quando não é ditada pelos termos do conflito, a urgência torna-se apenas um instrumento útil para anular tudo o que de mais libertador e contagiante uma experiência de construção e vivência comum pode significar.\n  </p>\n\n  <p>\n    E, no entanto, apesar de tudo isto, as expectativas foram largamente ultrapassadas. Quem no primeiro dia lá passou, já de madrugada, à espera de encontrar um par de tendas e, em vez disso, deparou com dezenas de pessoas a discutir, entendeu que algo estava a mudar. Talvez o mais interessante, o que acabou por salvar o Rossio de si próprio, tenha sido precisamente que todo o mundinho activista político-revolucionário foi apanhado de surpresa. (...) O aumento do descontentamento e o crescimento de uma multidão proto-antagonista que confluiu nas manifestações e na acampada serviram para tornar o mapa mais legível, iluminando afinidades e divergências. De um momento para o outro, uma festa que durante muitos anos se fazia quase por convite depara com uma enorme fila à porta, cheia de pessoas ansiosas por se juntar ao baile ou apenas por espreitar movidas pela curiosidade. É precisamente daí que devemos partir. Nos momentos de crise dos regimes, o senso comum, conjunto das verdades que normalizam a vida em sociedade, tende a sofrer alterações muito rápidas. É preciso desejar a surpresa de recém-chegadas sensibilidades radicais para que a revolta não nos apanhe ciumentos, rancorosos e ultrapassados.\n  </p>\n\n  <p>\n    A antiguidade e persistência de um percurso dissidente é um campo de forças e não uma cátedra moral. E sabemos também que depois de uma semana de barricadas estamos todos nivelados pelas mesmas qualidades. Assim vai o tempo: dilata e comprime em função da velocidade. (...) Importa sublinhar que poucos momentos políticos vividos em Lisboa nos anos anteriores terão sido tão interessantes e marcantes. Dito de outro modo, não nos agrada necessariamente o discurso produzido nas assembleias mas agrada-nos imensamente que elas tivessem acontecido e, ainda mais, toda a infra-estrutura que as complementou e tornou possíveis. Chegar ao Rossio às duas da manhã e ver centenas de pessoas a discutir as suas vidas sem reservas e, na medida do possível, alheias às suas trincheiras ideológico-partidárias foi algo extremamente entusiasmante e que uns meses antes todos julgariam impossível.\n  </p>\n\n  <p>\n    O texto completo pode ser encontrado <a href=\"https://www.scribd.com/document/133433155/Sobre-a-Passagem-de-Alguns-Milhares-de-pessoas-por-um-breve-periodo-de-tempo\" target=\"_blank\">aqui</a>.&nbsp;\n  </p>\n\n    <h2 id=\"sermao-do-entretanto\" class=\"align-center\">\n      SERMÃO DO ENTRETANTO\n    </h2>\n\n  <p>\n    A tristeza era antes uma indicação<br>e os amigos mais queridos<br>refugiavam-se inteiros num ferimento secreto\n  </p>\n\n  <p>\n    redigíamos à noite o testamento dos parcos recursos<br>ruminando ainda e sempre o tédio<br>em dócil comando pelo umbigo\n  </p>\n\n  <p>\n    subitamente à força de astúcias<br>explodem as convenções históricas<br>o encontro na praça é a suspensão de um tempo\n  </p>\n\n  <p>\n    há que escandi-lo de acordo com celebrações<br>o advento que se estabeleça<br>íntimo, público, numa profusão de calendários\n  </p>\n\n  <p>\n    em linhas simples mas imperiosas<br>à procura do que antes não<br>em fermentações imprevisíveis\n  </p>\n\n  <p>\n    chegam ao décimo dia os poemas<br>a trepar aos apetrechos da voz<br>germinando uma só palavra que venha a ser\n  </p>\n\n  <p>\n    mistura de pólen e acaso<br>para as criaturas dispersas<br>legenda dos actos súbitos\n  </p>\n\n  <p>\n    não tarda chegamos ao definitivo<br>onde as cobardias se tornam insuficientes<br>brusco horizonte em construção\n  </p>\n\n  <p>\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 10.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 10.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <b>A Passarada #9</b>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/Alem-da-acampada.png\" height=\"566\" width=\"1170\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Alem-da-acampada-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Alem-da-acampada-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Alem-da-acampada-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Alem-da-acampada-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Alem-da-acampada-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Alem-da-acampada-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Passou pouco mais de uma semana, mas parece que passaram dois meses. Impossível de contar tudo o que aconteceu, quantas pessoas conhecemos, difícil recordar quando os dias não começavam e terminavam a pensar na acampada. Uma cumplicidade silenciosa percorre-nos a todas. Um espanto que não cessa de crescer : somos cada vez mais, organizamos-mos cada vez melhor. Tácticas, palavras e conversas impossíveis de verbalizar há uma semana fazem agora parte de uma linguagem comum. As ingénuas tornaram-se veteranas, as niilistas tornaram-se crentes, as hesitantes tornam-se militantes.\n  </p>\n\n  <p>\n    Uma acampada é uma forma de luta singular : as necessidades infraestruturais e temporais são desmedidas. A exaustão surge paralela ao colapso dos pressupostos ideológicos. A materialidade da luta sobrepõe-se a qualquer mesquinhez sectária. Os soldados da primeira guerra mundial diziam que não existiam ateus nas trincheiras, acrescentamos: não existem cínicos nas barricadas. A pessoa que segura um pedaço de cartão para se proteger do Corpo de Intervenção tem em si mais alma e coragem que qualquer idiota na TV.\n  </p>\n\n  <p>\n    As acampadas, e outras formas de luta imersivas, escalam a intensidade das lutas. Elas superam o ecossistema activista, transformando-o em algo mais do que a mera acumulação de colectivos dispares em competição pela atenção e energia dos parcos meios antagonistas. Elas criam um movimento. Não um movimento social, mas o movimento: quando cada átomo de ímpeto insurrecional intui pertencer a algo que não existia antes e se entrega a essa força comum. Hoje, essa força comum assume a forma de acampada, mas ela pode sobreviver ao fim da acampada, que inevitavelmente chegará. Isso seria a sua maior vitória.\n  </p>\n\n  <p>\n    Em termos concretos isto que significaria que a área extra-parlamentar abandonaria a fase dos colectivos dispares para assumir essa forma de movimento. Isso não pressupõe qualquer unificação ideológica, metodológica ou temática (qualquer tentativa nesse sentido seria um recuo). Pelo contrário, a diversidade e multiplicidade de posições, por vezes contraditórias, será a nossa força. O que há a transversalizar será a questão do que fazer para tornar esta área materialmente mais forte, mais capaz, mais extensa. Deixar de pensar a acampada como a mera presença de tendas nesta ou naquela praça mas enquanto algo vasto: a acampada difusa.\n  </p>\n\n    <h2 id=\"o-regresso-as-tendas\" class=\"align-center\">\n      O REGRESSO ÀS TENDAS\n    </h2>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/Regresso-as-tendas.png\" height=\"478\" width=\"1170\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Regresso-as-tendas-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Regresso-as-tendas-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Regresso-as-tendas-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Regresso-as-tendas-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Regresso-as-tendas-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Regresso-as-tendas-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Era a minha segunda vez num movimento assim. A primeira, a outra acampada, tinha-a vivido de maneira completamente diferente. Era um estudante universitário com a paixão pelos livros. Tinha lido Foucault, Debord, e outros desse tipo, e tinha aprendido que o capitalismo era um monstro terrível e invencível. Mas quando começaram a aparecer tendas no Rossio, vi milhares de pessoas que, como eu, sonhavam uma vida diferente. Senti que tudo era possível. Decidi, então, que dedicaria a minha vida à militância. Não decidi, percebi que não tinha escolha.\n  </p>\n\n  <p>\n    Nos 14 anos que se seguiram, esse ciclo de protestos nunca desapareceu realmente. Constantemente o discutíamos, o analizavamos, o romantizavamos. Essa presença imaginária fazia-nos sonhar com o regresso das mobilizações. Em cada gesto de resistência viamos a promessa do retorno iminente às barricadas. Quando os protestos pela Palestina se tornaram manifs selvagens, começámos a murmurar : chegou a hora. Chamámos os amigos, discutimos até tarde, formámos novos grupos e novas cumplicidades.\n  </p>\n\n  <p>\n    Entao apareceram tendas no Porto, na Praça D João I. Fui a correr visitar a Invicta, tinha de verificar com os meus olhos se aquilo que há anos sonhávamos se estava mesmo a tornar real. Depois uma chamada numa página Instagram de origem desconhecida, para acampar em Lisboa. Esta parte vocês sabem: tendas, assembleias, porrada, conchinha, zangas, mais porrada. Voltar sempre tarde a casa, mas cheio de esperança. \"Agora vemo-nos todos os dias\". \"Trouxeste A Passarada?\". Pela segunda vez na vida, senti que tudo era possível.\n  </p>\n\n  <p>\n    <b><i>“SE A HIPÓTESE DE DESOBEDECER, RESISTIR, RIPOSTAR, ETC, ESTÁ DE ANTEMÃO DESCARTADA, ESTAMOS APENAS A CHAMAR \"PACIFISMO\" À OBEDIÊNCIA. OU SEJA, NÃO SOMOS PACIFISTAS, LIMITAMOS-NOS A ACEITAR A VIOLÊNCIA DO ESTADO COMO A ÚNICA POSSÍVEL.”</i></b><br>\n  </p>\n\n  <p class=\"align-right\">\n    <b>UMA CAMARADA QUALQUER NUM CHAT PERDIDO</b>\n  </p>\n\n    <h2 id=\"assembleias-e-afinidades\" class=\"align-center\">\n      ASSEMBLEIAS E AFINIDADES\n    </h2>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/Afinidades.png\" height=\"294\" width=\"1170\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Afinidades-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Afinidades-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Afinidades-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Afinidades-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Afinidades-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/12/responsive/Afinidades-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Um debate percorre o nosso movimento. Por considerarmos que não é apenas algo circunstancial decidimos regressar a ele. Qual o melhor modo de tomar as decisões colectivas cruciais para o funcionamento deste protesto? Duas posições têm surgido. Não pretendemos saber todos os termos da sua discussão ou aplicação mas tentaremos ser justas na sua descrição. A primeira posição defende que as decisões políticas devem ser tomadas na assembleia popular, enquanto as decisões operativas devem ser tomadas nos grupos de trabalho. As assembleias são abertas a todos e permitem auferir de modo imediato e verificável as vontades colectivas. A vontade popular é soberana, e portanto sobra pouco espaço a pressões palacianas ou identitárias. A crítica a esta primeira hipótese afirma que a assembleia popular não permite um debate mais aprofundado, que está ancorada numa performatividade efusiva, mais conducente a discursos inflamados do que à lucidez afiada de que necessitamos. Ao mesmo tempo, nem todos têm a eloquência, a segurança ou a vontade necessária para falar em público, acabando por excluir várias pessoas da discussão. A segunda posição diz que as decisões deveriam ser tomadas por uma reunião de delegados revogáveis, escolhidos por grupos de afinidade. Isto permitiria discussões mais profundas e decisões mais ágeis, enquanto fomentaria formas de organização mais profundas e menos ancoradas na performatividade da assembleia popular. O problema desta hipótese é que pressupõe que toda a gente na acampada faz parte de, ou sequer sabe o que é, um grupo de afinidade. Ela corre o risco de fazer com que uma experiência colectiva difusa e aberta regresse à bolha autorreferencial do activismo. Paralelamente, nem todos se sentem confortáveis em trabalhar em grupos pequenos, onde o poder carismático não é menor do que nas assembleias, apenas diferente. Uma crítica comum pode ser aplicada a ambas as posições: nenhuma delas realmente resolve a questão dos poderes palacianos, ou seja, das decisões que são tomadas longe dos locais de decisão. Um grupo organizado consegue facilmente manipular tanto uma assembleia popular (é a primeira coisa que se aprende a fazer enquanto membro de um partido político) como uma assembleia de delegados. Nenhuma das possibilidades realmente consegue fazer essa ponte complexa entre capacidade deliberativa e decisória e horizontalidade. A condição pessoal de cada um ditará uma preferência. Os tímidos preferem isto, os extrovertidos aquilo, os populistas isto, os conspiradores aquilo. Mais do que estabelecer quem tem razão, importa ir além do impasse.\n  </p>\n\n  <p>\n    A acampada não é um estado soberano. Ela não tem uma população fixa nem uma identidade nacional. Talvez seja um vicio da nossa educação liberal presumir que ela é uma unidade política coesa e que como tal tem de ter uma única forma de governo e de autoridade. A acampada nunca terá uma forma fechada de organização, porque ela, em si, é uma experiência aberta. O momento de lavragem da sua constituição será o momento em que ela termina enquanto experiência política. Na acampada convivem, em sintonia e em confronto, múltiplas formas de viver, de pensar, de fazer e de decidir. Isto não é uma veleidade poético libertária – é a mais material das verdades. A questão da gestão da acampada não é a de encontrar a teoria ou a forma certa, é a de aprender a viver em conjunto à volta de uma experiência imensamente volátil. O debate acerca de como tomar decisões precisa partir desta consciência. A acampada é incontrolável e imprevisível, tanto na sua força como na sua fraqueza, e o máximo que podemos fazer é pensar à volta dessas marés. Dito de outro modo – não estamos a discutir qual a forma soberana da acampada, mas sim como potenciar a sua força em cada momento.\n  </p>\n\n  <p>\n    Para isso é necessário uma mudança de paradigma. Toda a nossa energia e boa-vontade não chegará para descortinar, nestas semanas, a forma perfeita de organização horizontal das sociedades humanas. Em abstracto, isso não existe senão enquanto fantasia. O que existe sim é a possibilidade de conjugar em cada momento, em cada situação, o possível balanço entre reprodução da nossa força comum e a sua capacidade política: o momento onde conseguimos agir assegurando a nossa sobrevivência. O campo onde se baseia a discussão sobre a organização não é aquele da utopia, mas o da guerra civil.\n  </p>\n\n  <p>\n    Nesse sentido, não se trata de escolher entre Assembleia Popular e Grupos de Afinidade, mas de pensar que território conseguimos construir onde ambas estas formas de organização, e outras, joguem o seu melhor papel.\n  </p>\n\n    <h2 id=\"praca-luigi-mangione\" class=\"align-center\">\n      PRAÇA LUIGI MANGIONE\n    </h2>\n\n  <p>\n    Quiçá contra alguns augúrios de esmorecimento, numa segunda-feira à noite sem concertos à vista, a Praça do Rossio volta a encher-se de gente. Uma conversa sobre os recentes levantes um pouco por todo o lado - com estudantes a apelar à greve, à ocupação das escolas e ao bloqueio da normalidade; com a décima assembleia popular - onde a votação sobre uma eventual mobilização da Acampada até à manifestação convocada pela polícia começa a mudar o tom pachorrento e a esboçar a procura de léxico para escapar à armadilha de achar que qualquer gesto conflituoso é forçosamente violento; e logo a seguir, com uma formação em acção de massas, que sentou mais de uma centena de pessoas no chão para o bê-á-bá da resistência com laivos de desobediência civil.\n  </p>\n\n  <p>\n    Enquanto na assembleia se começava a disputar o entendimento simplista do que significa ser- se pacífico, noção que no pós 25 de abril se espraiou enquanto argumentário popular hegemónico, um par de companheiras iça um cartaz que renomeia a praça. Passámos a ter a Praça Luigi Mangione, finalmente. Isto valeu-lhes a imediata aproximação da bófia para lhes lembrar que 1. não estavam autorizadas a subir à estátua e 2. muito menos com aquele conteúdo.\n  </p>\n\n  <p>\n    Para muitas das pessoas que têm dedicado o seu tempo, a sua vitalidade e criatividade à construção deste espaço rasgado a pulso, que veio suspender a normalidade na metrópole, começa a ficar claro que a tez indefesa e obediente não está à altura das necessidades que se vão apresentando. Num pequeno círculo de amigos murmura-se que assim não pode ser e que agora sinto-me pronto para o que der e vier. Num outro, mais adiante, que há aqui muita confusão entre pacifismo e legalismo. E depois há um puto deitado sozinho, atrás da estátua, que vai esfrangalhando um cravo à tesourada.\n  </p>\n\n  <p>\n    A verdade é que a Acampada não é um reality show e, carecendo de possibilidade de resumido estabelecimento dos objetivos que enceta, não se constrói para a disputa da opinião pública. Perceber isto, perceber realmente isto, dissipa a força e a tendência das propostas recuadas, simbólicas e performativas e recentra a discussão nos vectores que importam: por um lado a abertura desse tal terceiro espaço, onde as pessoas se têm encontrado diariamente para testar maneiras, táticas e resignificar a sua capacidade de permanência e compromisso; e por outro lado a resistência concreta a um problema transversal e asfixiante que tem roubado horizonte a toda a gente - a falta de habitação digna com que muitas pessoas já se confrontam e a perspectiva de que isso está para piorar.\n  </p>\n\n  <p>\n    Entretanto, no meio disto, houve uma vigilância constante e uma carga policial posterior, que empurrou muitas pessoas a terem que decidir, com poucos meios e pouco léxico, sobre como se querem posicionar nas trincheiras dessa investida concreta. Mártires sempre haverá, mas surgem agora mais vozes que clamam por um deslocamento destes conceitos relativamente pouco discutidos e certamente pouco disputados, a que se convencionou chamar de vandalismo e violência. Preferem chamar-lhe conflito. Ora, a definição de conflito deixa de se ficar pela costumeira ideia de uso de força, de investida, de coação, de tirania, e recentra a conversa em torno da ideia de disputa, de desacordo entre visões, interesses, valores e pontos de vista<br>tendencialmente incompatíveis.\n  </p>\n\n  <p>\n    Quando alguém decide defender-se além de ficar meramente sentado no chão a apanhar porrada, ou a ser insultado, ou, de um modo mais estrutural, a ver a sua vida, o seu horizonte e a sua possibilidade de ter um futuro a irem pelo ralo, pode fazê-lo de múltiplas formas e com recurso a um sem-fim de estratégias. A recusa em obedecer cegamente à violência do estado e das suas fileiras de actuação enquanto as únicas possíveis é a abertura da brecha do sonho diurno, concreto e lúcido, que transcende a conversa fiada, que permite a ampliação do vocabulário e que o inventa ao mesmo tempo.\n  </p>\n\n  <p>\n    Ontem e anteontem estas conversas começaram a desdobrar-se, paralelamente à queda da proposta de arregimentamento da Acampada para participação na manif de bófias que apelou ao apoio popular, porque já não vamos em cantigas - não, não estamos todas para o mesmo, não, não estamos todas do mesmo lado - e sim, há forças e estruturas que existem para a mera manutenção do projecto vigente para o mundo, que não nos serve e com o qual não nos alinhamos. O conflito é esse.\n  </p>\n\n  <p>\n    Ben Morea disse que o que eles nunca vão suportar é que sejamos como somos, que a nossa forma de fazer política, a nossa forma de rebeldia, seja equivalente à nossa forma de orar, que vamos para cima deles assim, com a nossa força bruta, as nossas mãos fodidas, a nossa gargalhada, a nossa fragilidade.\n  </p>\n\n  <p>\n    Podes não estar, ainda, disponível para reconfigurar o teu entendimento sobre os recursos que os meninos perdidos queiram pôr a jogo, mas não sejas capitão gancho. Não saías, ao menos, esbaforido em apelos de resignação e luva branca, protege as pessoas que estão a tentar, saíndo-lhes da frente.\n  </p>\n\n  <p>\n    Imoral é o capital, tudo o resto é circunstancial.\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 9.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 9.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <strong>A Passarada #8</strong>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/Barricada.png\" height=\"296\" width=\"1070\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Barricada-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Barricada-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Barricada-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Barricada-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Barricada-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Barricada-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Levantas-te de manhã. Sabes que o dia vai ser longo, mas entras logo em alerta, tens muito para fazer. Ainda são precisos uns materiais para fazer faixas para a manif e depois de os arranjares aceleras para a baixa. Pintas uma faixa, segues para o Marquês, comes com os teus amigos, está um dia lindo de sol, está um dia lindo para a guerra. Às 15:00 não está ninguém no Marquês – foda-se será vai ser um fiasco? – mas de repente estás no meio de milhares de pessoas. A manifestação está bem viva, desta vez até ficas com pica de entoar umas palavras de ordem, não parece aquele cringe habitual da passeata na rua, está toda a gente a brilhar de raiva e de alegria militante. No Rossio está tanta gente que parece que não vai dar para montar as tendas, mas todos querem ver a acampada reerguida e então naturalmente criam espaço para se retomar a praça. Estabelecida a metrópole, dás a volta à praça. Este giro já se tornou um hábito, tal como o encontro diário com os teus amigos e com tanta outra gente que procura uma vida diferente. Podias habituar-te a isto. Podias habituar-te a viver num espaço em que sair de casa não é andar como um alien no meio de estranhos, mas aprofundar e criar ligações e cumplicidades em cada esquina. Assembleia, concertos, plenário de delegados (finalmente vamos tomar decisões que não são só um braço no ar meio aleatório). Está tanta gente na praça que ninguém acha que seja possível que a polícia carregue hoje. Vamos dormir aqui de novo, amanhã vamos ter outro domingo ao sol a viver a vida como gostávamos que ela fosse e a construir força entre novas amizades. A informação que circula é ameaçadora, mas todos os dias foi a mesma coisa. Entre todos decide-se que se vai defender a acampada em bloco em vez de fazer um cordão disperso. No meio das discussões é dado o alerta de que eles estão a preparar-se. Ainda toca música no Rossio, quando toda a gente se dirige para o lado norte da praça para olhar a polícia nos olhos. A tensão monta-se. Estás com os teus companheiros, não queres perdê-los de vista. Fala-se de cães, balas de borracha e gás lacrimogéneo, mas nenhuma ameaça demove as pessoas que defendem a praça juntas e em fúria. Sobes a um banco para olhar por cima da multidão e nunca viste tanta bófia na vida. No Porto, o aparato é semelhante e as pessoas mantêm-se firmes. Tens medo, porque apesar de não te caber na cabeça como é que podem reprimir alguém desta forma por causa de umas tendas, ao terceiro aviso sabes que é quase inevitável que eles venham mesmo com tudo. Quando tudo começa, o empurrão inicial é de imediato contestado pela pressão de um bloco de pessoas que com toda a bravura faz frente à linha policial. A força do bloco mantém-se ao mesmo tempo que pessoas começam a correr por todo o lado. Duas amigas tuas recuam de braço unido, devagar, fortes e aguerridas no meio do caos. Avanças para ver se alguém ficou para trás e recuas assim que a polícia carrega.&nbsp;Na rua do ouro caixotes do lixo e todo o tipo de objetos são convertidos em barricadas e obstáculos. A polícia carrega em ondas, e é fácil manter a distância enquanto se vai desbravando caminho pelas ruas da cidade. Dá-me a mão, dá-me o braço, corremos juntos. No meio da multidão, algumas pessoas arrastam as suas tendas desde o Rossio e o homem aranha passa a correr à tua frente. Encontras os teus amigos. Uma pessoa passa por ti de cabeça aberta e vão-se amontoando relatos de dezenas de pessoas feridas e detidas, enquanto na Praça da Figueira a resistência subsiste. Embrenhas-te na cidade e o tempo parece parado. Parece que toda a gente com quem te cruzas esteve no Rossio. Uma pessoa que não vias há anos aborda-te com um \"então, camarada?\" e diz-te cheio de emoção que agora tudo mudou, já nada vai poder ser como dantes. Alegra-te ver alguém que não sabias ser teu camarada tão certo de que chegou a hora de lutar. Entretanto reune-se toda a gente, e abrem-se portas para conhecidos e desconhecidos.\n  </p>\n\n  <p>\n    Não são as tendas que os ofendem. O medo deles é que se descubra que a vida não é só trabalho e desespero e que existe uma força coletiva que, pode aprender a voar e a fazer-lhes frente em bando, pondo em causa todo o poder instituído.\n  </p>\n\n  <p>\n    Este é o fim do primeiro acto. Esperamos atentos e preparamos as nossas forças para o que vem a seguir. Espero que tenhas chegado bem a casa. Vemo-nos amanhã.\n  </p>\n\n    <h2 id=\"abril-acabou-estamos-em-guerra\" class=\"align-center\">\n      ABRIL ACABOU, ESTAMOS EM GUERRA\n    </h2>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/Abril-acabou.png\" height=\"670\" width=\"2722\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Abril-acabou-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Abril-acabou-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Abril-acabou-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Abril-acabou-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Abril-acabou-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Abril-acabou-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Se o presente movimento pela habitação emerge da indignação ante uma carga policial no Porto, e se este movimento se torna mais forte a cada repetição dessa violência de estado, o que leva Neves e Montenegro a insistir nela? O que têm a ganhar com as imagens de brutalidade policial? No cerco do Porto várias pessoas alheias à manifestação juntaram-se para a tentar apoiar. Um homem gritava que respeitava a polícia, que o seu irmão era polícia, que tinha feito o mesmo juramento que eles, mas que assim não podia ser. Se é tão evidente que o estado corre o risco de pegar fogo à pradaria porque continua a lançar chispas? E mais importante, o que é que isso significa para nós, para quem o activismo e a militância começa a deixar de ser um hobby para ser uma questão existencial?\n  </p>\n\n  <p>\n    Comecemos pela hipótese mais óbvia. Neves e Montenegro não são particularmente inteligentes nem percebem muito bem o que estão a fazer. Montenegro é um primeiro ministro acidental, desprezado pelas elites do seu próprio partido, Neves uma gangrena na credibilidade do governo. As cargas não são tanto uma escolha estratégica mas decisões ad hoc, de quem é incapaz de perspectivar um futuro longínquo e que acha que se bater com força suficiente os problemas cessam. A moderação do discurso de Neves (chegando a falar no respeitos dos direitos humanos) faria sugerir algo do género. Montenegro, de facto, não parece um estadista brilhante, mas raciocinar presumindo a estupidez do outro é uma armadilha a que não nos podemos permitir.\n  </p>\n\n  <p>\n    A segunda hipótese é que o acosso de Montenegro por Passos Coelho e Ventura o levam a aumentar o conflito social. Ante uma esquerda “inorgânica” aguerrida, combativa, desafiada a mostrar o seu poder real, e uma extrema-direita assanhada, Montenegro surgirá enquanto o que sustém Portugal ante o abismo dos “extremismos”. Para isso precisa de cativar o eleitorado do Chega e incendiar as ruas. Uma hipotética aliança Chega-PSD levaria o confronto nas ruas a níveis inéditos, e o único que o pode impedir é um governo implacável. Esta parece a hipótese mais evidente, mas ainda assim curta.\n  </p>\n\n  <p>\n    A verdade é que Abril acabou. Não é uma novidade, mas antes assistíamos à decomposição desse pacto social abrileiro e agora já estamos fora dele. Abril não volta e a sua constante evocação é apenas a medida da nossa derrota. O manifestante que se sentou no chão segurando um cravo foi o primeiro a ver a sua cabeça esmagada contra a calçada por vários polícias. A extinção irrecuperável desse pacto abre espaço a uma engenharia social que em muito transcende o presente governo ou o espaço político nacional. Hoje, aos olhos do poder, é possível tornar Portugal, finalmente, numa experiência de hipervalorização capitalista. Mão de obra barata, exportação de cérebros, extrativismo social (turismo, etc), cripto-feudalismo das elites urbanas, integradas na pequeno burguesia mundial, e proletarização da classe média que<br>não apanhou o barco. É essa transformação, essa subjectivação, que está curso. O futuro será de controle policial cada vez mais feroz e de explosões de violência plebeia cada vez mais selvagens.\n  </p>\n\n  <p>\n    Onde é que isto nos deixa? O que Neves e Montenegro não percebem, porque não conseguem perceber, porque lhes é totalmente estranha uma ideia de comunidade que não seja mediada pelo valor ou pelo amor ao poder, porque não concebem o tipo de laços e de inteligência que somos capazes de construir juntas, é que aqui que se abre um caminho de cabras: a possibilidade da construção de uma força comum que vá muito além do que é hoje possível conceber. Cada dia que passamos na acampada, com as suas partes boas e más, aprendemos melhor como viver e trabalhar umas com as outras. Cada diz que levamos na boca aprendemos melhor a defender-nos e a responder à violência do estado. Cada dia que nos olhamos nos olhos vimos breves lampejos do que poderia ser um outro mundo e uma outra vida. O movimento da acampada foi o primeiro facto político desde a emergência do Chega. Ele surge do mesmo local - a exaustão do capitalismo tal como o conhecemos - mas em sentido inverso. Da mesma forma que o Chega produziu um sujeito fascista, o movimento da acampada, dentro das formas futuras que tomar, poderá produzir uma singularidade revolucionária colectiva. É isso que são incapazes de perceber. É por aí que temos de desbravar caminho.\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/Perna.png\" height=\"723\" width=\"825\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Perna-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Perna-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Perna-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Perna-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Perna-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/11/responsive/Perna-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n    <h2 id=\"companheiras-e-insurreicao\" class=\"align-center\">\n      COMPANHEIRAS E INSURREIÇÃO\n    </h2>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    (uma adaptação realista do texto Mulheres e Revolução, de Maria Velho da Costa, escrito em 1975)\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>1. Reconstituição da força de trabalho</b><br>Elas são umas poucas centenas, o dia põe-se, elas acendem o lume. Elas cortam o pão que vão servir com o guisado na cantina. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas encontram companheiras e sentam-se pelo chão, abraçam-se à passagem. Elas enchem pratos e guardanapos e embrulham fruta num pano limpo. Elas estendem na tenda os lençóis e as mantas para os usarem outra vez. Elas esfregam o chão da praça de joelhos com escova de piaçaba e sabão e somam tarefas do seu grupo de trabalho. Elas passam no supermercado e pedem donativos, pelos cafés e confeitarias. Elas contam cêntimos. Elas escrevem frases utópicas num cartão que ia ser lixo e assim se torna sonho. Elas vêm com garrafões de água à cabeça para<br>matar a sede. Elas acenam entre si ora com raiva cansada ora com cumplicidade. Elas correm esbaforidas para garantir que tudo se faz. Elas vão na mesma trabalhar sem ter ido à cama. Elas realinham a discussão num eixo político. Elas retiram a tranca da praça. Elas lambem a ponta do fio da linha para virar a balaclava. Elas pousam o braço sobre a estátua para aguentar. Elas arredam o fecho na tenda. Elas também dormem.\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>2. Reprodução da força de trabalho</b><br>Elas vão ao microfone arregimentar os ânimos. Elas alargam a duração da voz. Elas choram quando ouvem certas coisas. Elas limpam as lágrimas. Elas passam mãos pelas costas. Elas andam descalças quando os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas cantam baixinho a meio da noite quando a polícia passeia carros de lá para cá. Elas carregam-se ao colo, às cavalitas, aos tropeções. Elas apuram o ouvido quando o PA só dá de um lado. Elas chamam Primavera a esta estação. Elas anotam cuidadosamente o código do wc do café no braço e passam-no adiante. Elas passam pela biblioteca e lêem um poema em voz alta. Elas usam a mesma roupa vários dias e vão cheirando cada vez mais a pessoa. Elas talham um rectângulo de giz no chão e dizem que agora já se vê a passagem para outro modo. Elas carregam sofás e refestelam-se em gargalhadas. Eles perdem a vergonha e começam a dançar por tudo e por nada.\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>3. Produção</b><br>Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para poder ver a multidão. Elas mondam as mãos tolhidas pela frieira ao acordar. Elas fazem descer a lâmina sobre a imprensa improvisada. Elas molham a ponta do dedo para distribuir o jornal todos os dias. Elas convocam os astros e perguntam-lhes como é. Elas esfregam os olhos e chamam à rua milhares. Elas têm raiva e prazer. Elas deitam-se ao sol, sobem e descem a avenida. Elas pintam uma faixa em menos de nada. Elas actualizam a estátua com novos sentidos. Elas acartam o sistema de som para onde for preciso. Elas chamam quem já canta na língua do porvir. Elas limpam o suor da testa com a manga. Elas ouvem gente chegar enquanto a turba aumenta. Elas cortam-se nas primeiras vezes que sobem aos postes. Elas tratam das feridas das primeiras detenções. Elas debatem-se com a papelada de um sistema que burocratizou tudo o que é simples. Elas vigiam as perpendiculares para saber qual é a deles. Elas amamentam entretanto a sua criança sentadas de pernas cruzadas. Elas brincam umas com as outras. Elas batem-se por fortalecer a linha justa. Elas sacam da comida que ainda tinham na mochila e partilham um bagaço. Elas rasgam mínimos paraísos com um meneio de ombros.\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>4. Serviços</b><br>Elas preparam primeiros-socorros e aprendem a acudir às feridas. Elas apagam as apps e encriptam os movimentos. Elas ainda mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes do lixo já noite fechada. Elas reagrupam os restos das tendas que ainda têm. Elas agitam os megafones com voz que entretanto se ausentou. Elas batem à máquina palavras para o que ainda há a fazer. Elas arquivam reflexões para depois lá voltar.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>Transmissão de Ideologia</b><br>Coisas que elas dizem:<br>Se mexes aí, vai ficar bom.<br>Isso não são coisas de revolucionária.<br>Já tens grupo de afinidade?<br>Deserta, que se tiveres mais tempo para pensar sempre é uma ajuda.<br>Devíamos estar cá todas.<br>Isto já vai do afinco de cada qual.<br>Os astros quiseram.<br>Mas os representantes políticos disseram-nos que assim não.<br>Dá-lhes lá um votinho que são tão bonzinhos prá gente.<br>Toda a gente sabe que somos dessas.<br>Estás a assegurar o teu futuro com umas e com outras.<br>Deixa-te disso, o que é preciso é tomarmos a tarefa com pujança.<br>Rasguei uns jeans bestias, pá.<br>Sempre dá para expropriar mais umas tendas.<br>Cada qual no seu lugar.<br>Julgas que depois dá para ser como d’antes?<br>Isso de haver sempre pobres e ricos vai a debate.<br>Se tu gostasses de mim, passavas cá mais tempo.<br>Põe o comer às companheiras, que ainda não pararam.<br>\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>Produção de desejo</b><br>Elas pouco olham para o espelho porque não se reconhecem. Elas riem-se. Elas suspiram por um amor colectivo e debatem os seus termos. Elas aprendem a fabricar armadilhas e protecções. Elas aprendem a defender-se. Elas cortam o cabelo entre si para se sentirem como novas. Elas carregam mais preocupações do que deviam. Elas sentem-se responsáveis e aprendem leis e portarias de um dia para o outro. Elas sonham três noites a fio que a vida podia ser assim. Elas sentem o calor insurrecto quando sacam da bandana. Elas inventam histórias e fazem planos. Elas conspiram e perdem o sono nisso. Elas nunca passaram tanto tempo de mãos dadas. Elas ignoram a rixa do dia anterior e focam-se no essencial. Elas arredam aquela tristeza que traziam<br>sem razão. Elas falam destas coisas. Elas atrevem-se e atiram-se ao relance. Elas celebram os cabelos brancos que ganharam. Elas chamam de noite nomes que se aproximam. Elas queriam outra coisa.\n  </p>\n\n  <p>\n    <b>Insurreição</b><br>Elas resistiram à bófia de braços entrelaçados. Elas gritaram aos transeuntes que se juntassem também. Elas disseram que daqui ninguém nos tira. Elas souberam dizer violência policial e preparar barricadas. Elas vieram para a rua de preto. Elas escreveram no corpo o número legal para o que desse e viesse. Elas ficaram roucas. Elas encheram a praça com promessas. Elas disseram aos ricaços e à polícia que isso era dantes. Elas trouxeram alento e primeiros socorros depois da investida. Elas foram para a frente de capacete e escudo de cartão. Elas ouviram falar de uma grande mudança que aí vinha. Elas choraram e riram a correr pelas ruas. Elas encheram o bolso de acendalhas. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam outra geografia num ápice. Elas dobraram um papel em quatro com sangue da pessoa com a cabeça aberta. Elas sentaram-se a falar à roda da mesa da associação a ver como podia ser amanhã. Elas escreveram comunicados e adormeceram sentadas na cadeira. Elas levantaram o braço na assembleia. Elas cortaram bandeiras e cagaram as mãos com tinta. Elas disseram segura-me aqui os cachopos que eu vou defender o nosso horizonte. Elas iam e não sabiam para onde, mas iam. Elas acendem o lume. Elas são umas poucas centenas, o dia começa. São elas que acordam as bestas, as crianças, e as pessoas adormecidas.\n  </p>\n\n  <p>\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 8.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 8.pdf</a>\n  </p>",
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            "content_html": "\n  <p class=\"align-center\">\n    <strong>A Passarada #7</strong>\n  </p>\n\n    <figure class=\"post__image post__image--center\">\n      <img loading=\"lazy\" src=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/Xadrez.png\" height=\"2435\" width=\"3869\" alt=\"\"  sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" srcset=\"https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/responsive/Xadrez-xs.png 640w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/responsive/Xadrez-sm.png 768w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/responsive/Xadrez-md.png 1024w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/responsive/Xadrez-lg.png 1366w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/responsive/Xadrez-xl.png 1600w ,https://passarada.codeberg.page/media/posts/10/responsive/Xadrez-2xl.png 1920w\">\n      \n    </figure>\n\n  <p>\n    Rossio, meio da tarde, acampada. Um senhor mais velho lê o jornal sentado nos degraus da estátua pintada e cheia de cartazes. A seu lado uma jovem mulher dá de mamar a um bebé. Em frente, dois jovens colocaram uma mesa de campanha e estão a jogar xadrez, ambos de balaclava. Faltam algumas horas para a assembleia geral, para chegarem os activistas, os jornalistas, os polícias, os militantes, os curiosos, os simpatizantes, os estrategas. Estão ali apenas os que não tem nada melhor para fazer. Os desempregados, os indigentes, os boémios, os estudantes. Uma imagem que se tornou tão normal que poderíamos passar por ela sem dar conta que é uma fotografia enviada do futuro. Os miúdos, a mãe, o velhinho, nós, todos nascemos num tempo onde tudo parecia mais ou menos garantido. A economia ia sempre crescer, a paz ia durar para sempre, a sociedade civil era cada vez mais dinâmica, os nossos filhos iam ter doutoramentos, fazia sol no verão e frio no inverno. Esse tempo acabou. Pelo mundo fora, os estados declararam guerra às suas populações, a burguesia começa já a contar as suas fichas antes de mandar implodir o casino, enquanto nós contamos se temos SSRIs e Benzodiazepinas suficientes para aguentar até ao dia da revolução. Como dizia uma camarada ao microfone: “Nada falta ao triunfo da civilização. Nem o terror político nem a miséria afectiva. Nem a esterilidade universal. O deserto não pode mais crescer : está em todo o lado. Mas pode ainda aprofundar-se. Ante a evidência da catástrofe, há os que se indignam e os que agem, os que denunciam e os que se organizam. Nós estamos com os que se organizam.” Um passa-montanhas e um tabuleiro de xadrez - as ferramentas básicas deste sujeito que vem.\n  </p>\n\n    <h5 id=\"o-comite-invisivel-colectivo-frances-publicou-um-video-texto-sobre-a-insurreicao-de-17-de-outubro-em-franca-deixamos-aqui-a-transcricao\">\n      O Comité Invisível, colectivo francês, publicou um vídeo-texto sobre a insurreição de 17 de Outubro em França. Deixamos aqui a transcrição.\n    </h5>\n\n  <p>\n    De há uma semana para cá, observamo-vos a fabular, a gesticular, a delirar. Dizem qualquer coisa. Em pânico. Estão em total levitação. Só falam para vocês mesmos e para o vosso público cativo de reformados em frente à televisão. A vossa autoridade é inexistente. Para se ser respeitado, é preciso ainda ser respeitável.\n  </p>\n\n  <p>\n    A terrível verdade que há uma semana se esforçam por encobrir é simples. O 17 de outubro foi a insurreição mais alegre, mais leve, mais brincalhona e mais educada que alguma vez existiu. Os vossos bófias, como deram a entender, qualificaram esta insurreição como uma combinação entre a Comuna de Paris e a Black Friday. Tiveram tanto medo que há uma semana se perdem a esbracejar no vazio para tentar intimidar-nos, aterrorizar-nos, entristecer-nos. Podem bem ressuscitar a ORTF: toda a gente vê que o rei vai nu.\n  </p>\n\n  <p>\n    Acreditavam mesmo que ninguém se aproximaria alguma vez, em manif selvagem, da esquina da rue de l’Élysée, onde se encontram lado a lado a Compagnie Edmond de Rothschild, a embaixada americana e o Cercle interallié? Pensavam mesmo que os últimos habitantes da Paris de Bernard Arnault se contentariam para sempre com o seu estatuto de criados ou de figurantes no cenário das fashion weeks? Parecia-vos plausível que vos deixássemos, por toda a eternidade, ir-nos aos bolsos para enfeitar as vossas obscenas montras de luxo? «Mas o que é que lhes passou pela cabeça?», pergunta o vosso pervertido-mor. Então vamos explicar-vos.\n  </p>\n\n  <p>\n    O que aconteceu no sábado passado foi que vimos, pela primeira vez nesta sociedade gerontocrática, todos os jovens, sem distinção de proveniência nem de classe, tomarem as ruas dos centros das cidades, simplesmente porque se sabem prometidos ao mesmo destino de proletarização. Os jovens são, é certo, uma minoria nesta sociedade, mas, infelizmente para vocês, é a que ainda está viva. Compreendemos que tenham ficado com medo, vocês que nunca viveram nada além das etapas de uma carreira.\n  </p>\n\n  <p>\n    O tema do dia era o custo de vida. Hão de admitir que pilhar a Chanel é, ainda assim, a solução mais direta para este problema partilhado. Se tiverem outra, estamos interessados, mas não parece ser o caso. A vossa maneira de se apiedarem desses pequenos comerciantes que não pararam de empurrar para a falência com as vossas amigas plataformas não engana, evidentemente, ninguém. Recomendamos-vos, para vosso governo, que leiam finalmente aqueles cujos escritos figuram na vossa BnF a título de tesouro nacional. E em particular esta pequena brochura: O Declínio e a Queda da Economia Espetacular-Mercantil.\n  </p>\n\n  <p>\n    Não houve fiasco securitário no 17 de outubro: houve insurreição, isto é, abolição da<br>manifestação enquanto desfile regulado e mais ou menos fúnebre de um ponto A para um ponto B. Havia simplesmente, nos centros das cidades apinhados, gente demais e alegria demais para que um qualquer aparelho policial lhes conseguisse fazer frente. Nesse dia, ninguém estava com cabeça para se manifestar. As palavras de ordem táticas eram «Blocus République» ou «Blocus Bellecour».\n  </p>\n\n  <p>\n    Não perderam o controlo. Sabemos agora que só pareciam tê-lo graças à nossa contenção. A vossa própria resposta ao 17 de outubro confirma-nos todas as nossas razões: novos confinamentos, novos recolheres obrigatórios e até novas autodeclarações, contra o facto de termos finalmente tomado a rua. O vosso comportamento grotesco não tem decididamente limites. O que é isso senão mais uma razão para retomar a rua?\n  </p>\n\n  <p>\n    E depois, parem lá com a vossa \"ultra-esquerda\". Na rua, no 17 de outubro, não se viu Gilles Dauvé. Em contrapartida, viu-se o Naruto e o Capitão América, o Homem-Aranha e as Tartarugas Ninja, o Gandalf e o Luffy. Estava lá toda a gente. Havia anarquistas a cantar a Marselhesa e gente a carregar sobre as linhas da CRS com as mãos e com o riso. Havia miúdos a brincar com os vossos canhões de água como se estivessem num parque aquático. Havia uma juventude que tinha finalmente deixado de sofrer psicologicamente.\n  </p>\n\n  <p>\n    Podem tentar tudo para restaurar a tristeza sem a qual nenhum governo é possível. Podem tentar voltar a pôr nos carris o vosso comboio de manipulação eleitoral rumo à estupidez humana. Nunca conseguirão tirar-nos a alegria que vivemos.\n  </p>\n\n  <p>\n    A verdadeira expressão popular está na rua. Deixem as urnas para a casa mortuária. Fogo sobre o quartel-general da senilidade.\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 7.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 7.pdf</a>\n  </p>\n\n  <p>\n    \n  </p>",
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            "content_html": "\n    <h5 id=\"breves-apontamentos-sobre-o-movimento-em-curso\" class=\"align-center\">\n      Breves apontamentos sobre o movimento em curso\n    </h5>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <b>A Passarada #6</b>\n  </p>\n\n  <p>\n    A acampada de Lisboa atravessa a sua primeira, talvez última, crise. Enquanto participantes, de vários modos e com várias intensidades, na acampada, a equipa editorial d’A PASSARADA apresenta aqui o seu contributo a uma análise crítica da situação, partindo de um lugar de franca camaradagem com todas as ocupantes. Os problemas da acampada são os problemas do movimento em si, embora expressos de<br>forma inédita. Não nos interessa apontar dedos, os problemas são de nós todas, e pressupor a boa fé das outras é a única verdadeira medida da própria radicalidade.\n  </p>\n\n  <p>\n    1 – A repressão do estado e a pressão dos media têm a mesma função: obrigar a acampada a regressar à ordem e à normalidade. A repressão policial é directa: a acampada pode continuar, desde que cumpra as ordens discricionárias da PSP, saltando quando ela diz salta e rebolando no chão quando ela diz rebola. A repressão mediática é indirecta: a acampada deve sentir-se permanentemente escrutinada pela voracidade espectacular e obrigada a justificar-se ante qualquer cretinice e capricho. A polícia obriga a acampada a regressar à ordem do estado e os media obrigam a acampada a regressar à palavra do espectáculo. A lista de regras para permanência são uma forma de infantilização dos ocupantes.\n  </p>\n\n  <p>\n    Não podem fazer isto, não podem fazer aquilo, não interessa porquê, é assim que queremos, qualquer coisa venham cá perguntar que nós explicamos, se não for a bem é a mal. A questões inventadas pelos media (os graffitis, a limpeza da estátua, os cartazes, a conchinha, etc) são formas de encurralar a acampada numa permanente auto-justificação. Em momentos de conflito, temos que ser honestos sobre o que está em jogo, mas não podemos reproduzir acriticamente o discurso do poder e propagar o medo. A cidade de Lisboa é hoje um território devastado pelo capital, onde pouco ou nada sobra do que era a sua vida popular. Quem tem de justificar o que fez à cidade é o poder, não nós.\n  </p>\n\n  <p>\n    2 – A acampada não dispõe dos instrumentos políticos para responder a esta pressão. Não os têm porque não os conseguimos desenvolver a tempo. A repressão policial interrompeu a construção política da acampada, foi esse o seu único motivo. A assembleia popular é um importante local de encontro, de escuta, de aprendizagem, de construção de comunidade, de estreitamento de ligação, de construção de um património comum de práticas, símbolos, palavras e histórias.\n  </p>\n\n  <p>\n    Mas, realisticamente, ela é mais o aparato de uma assembleia do que uma verdadeira assembleia. A assembleia popular, pelo seu formato, não permite a discussão de ideias complexas, premiando uma performatividade que, embora necessária e importante a nível simbólico se esgota rapidamente a nível político. A assembleia é ainda incapaz de concretizar aquilo que se propõe fazer. Dois terços das suas decisões são impraticáveis. Outras, não precisavam do consenso de uma multidão para serem levadas a cabo.\n  </p>\n\n  <p>\n    3 – O primeiro desses instrumentos concretos de decisão política é difuso. A vida social da acampada deve ser organizada de modo a desafiar a autoridade do estado e do espectáculo mediático. Esse desafio não deve ser necessariamente físico. Não temos forças para enfrentar a polícia corpo a corpo. Mas nem por isso a acampada deve deixar de ser desafiante. A acampada deve permanecer ingovernável. É no processo de constituir essa ingovernabilidade que irão surgir os instrumentos de acção e de decisão que poderemos utilizar para aprofundar a luta. O esforço geral dos grupos de trabalho, das pessoas que frequentam e participam na acampada, não deve conduzir-se pela necessidade de obedecer às ordens do estado mas pela necessidade de organizar a ingovernabilidade. Encontrar espaços de opacidade, de intrusão, de escape, de ambiguidade, de irrupção por onde permanecer incontroláveis e imprevisíveis. Devemos reaprender a falar uma linguagem do antagonismo, não da obediência ao mestre. Só através dessa linguagem conseguiremos expressar as nossas formas de organização.\n  </p>\n\n  <p>\n    4 – O segundo é a criação de uma assembleia de delegados de grupos de afinidade. É um instrumento imperfeito e sujeito a todo o tipo de problemas, mas parece o único modo, por enquanto, de agilizar essa questão política. Esta não é um assembleia de colectivos, ou de partidos. Ela não visa federar o que já existe, nem organizar o ecossistema activista. Pelo contrário, ela deve ser uma assembleia das agências<br>colectivas realmente existentes dentro do mundo da acampada, formais ou informais. É um modo de integrar quem não está organizado de antemão, permitir que a informação circule sem ser em grupos de signal ansiogénicos e sobrelotados, viabilizar a discussão das tensões existentes em grupos mais pequenos e tomar decisões de forma ágil e resguardada de câmaras, que representem as várias subjetividades presentes, mesmo que uma multidão de centenas de pessoas esteja a ocupar a praça.\n  </p>\n\n  <p>\n    5 – Enquanto a praça estiver a atrair pessoas que não costumam sair à rua, pode valer a pena continuar a acampar no Rossio. Mas o movimento criado à volta da acampada não tem de ficar preso à ideia de acampada. Ele deve permanecer fiel ao que a acampada concretiza e significa: comunização do espaço metropolitano, deserção da<br>política tradicional. Cada vez que a acampada dá um passo em direcção à respeitabilidade mediática e institucional ela recua para o lodo de impotência onde nos encontrávamos.\n  </p>\n\n  <p>\n    Este movimento não é isolado: de França à Albânia, a explosão popular contra o poder que sistematicamente nos espezinha, nos rouba de futuro e torna o presente inabitável não parece perto de se extinguir. A chama da revolta não tem fronteiras e pode incendiar vontades de forma inesperada, e abrir horizontes aqui e agora que ontem não pensávamos serem possíveis. Neste contexto, o objectivo da acampada, e de tudo o que se seguir, deve ser claro: a metrópole deve ser ingovernável até a greve geral pela habitação se tornar inevitável.\n  </p>\n\n  <p class=\"align-center\">\n    <a href=\"https://passarada.codeberg.page/A PASSARADA 6.pdf\" target=\"_blank\">A Passarada 6.pdf</a>\n  </p>",
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