ENFIM A ACAMPADA!

A Passarada #1

Quinze anos depois da acampada do Rossio de 2011, as praças ocupadas regressam ao centro da metrópole. A questão da habitação espelha a questão da austeridade. Ambas protegem um capital em crise através de medidas directas e indirectas de engenharia social e de compressão salarial. O seu plano é simples: transformar as cidades em ilhas de altíssima valorização especulativa, dissipar o antagonismo e a revolta, criar zonas de controlo social disseminadas pelo território metropolitano. Ao contrário do que dizem, o seu modelo de cidade não é nem a democracia da pólis ateniana nem a lei da urbe romana, mas esse gigantesco dispositivo de alienação e domínio que se estende entre Gaza e Tel Aviv.
Quinze anos. Tudo diferente, tudo igual. Tudo pior, mas de modo familiar. Mais guerra, mais violência, mais pobreza, ainda menos certezas, ainda menos futuro, ainda menos fé no sistema. Mas também menos ilusões. Entre defender as migalhas do estado social e fantasiar uma deserção impossível surge uma outra hipótese: retomar a comunização do nosso território, do nosso engenho, do nosso meio, da nossa vida. Engendrar uma resistência e emancipação que não seja apenas uma sigla ou apenas um escape, mas uma técnica e uma inteligência que supere o presente estado das coisas. É isso que a acampada pode ensaiar: uma nova linguagem da revolta, um diferente sentido para os termos comunismo e anarquismo.
O desespero termina quando as tácticas começam. A nossa táctica é criar as condições subjectivas para uma Comuna de Lisboa. Superar a neurose, a depressão, o desespero e a ansiedade e toda a patologização do desejo por uma existência diferente. Estamos todos medicados, cansados, desiludidos, cínicos e fartos, mas nem por isso deixamos de ter claro que uma noite de luta vale mais do que mil partilhas nas redes sociais. A acampada abre a possibilidade de escalar não apenas a intensidade, mas sobretudo a qualidade das lutas.
Avante bárbaros!
GUIA PARA CURTIR UMA GANDA ACAMPADA
I - Fazer da acampada a cidade que destruíram. A cidade, espaço de insubmissão e de contracultura, já não existe. Foi nas últimas décadas totalmente colonizada pelo capital. Ela já não é um local de encontro, de ressonância ou de criatividade, mas um local de submissão ao patrão, ao senhorio, ao polícia e ao político. As acampadas devem reconstruir essa cidade indómita. Devem criar um território de ingovernabilidade no centro da metrópole.
II - Multiplicar os mundos da acampada. A acampada não é um comício, nem uma feira das ideologias, nem palco para políticos, nem uma forma de diálogo com o poder. Ela é uma forma de criar mundos e cultivar capacidades. Ela deve ser múltipla, contraditória, viva. À tentação de criar apenas UMA assembleia geral deve corresponder a multiplicação de locais de encontro, de diálogo, de aprendizagem, de trabalho e de prazer.
III - Desertar os ecrãs. A acampada permite-nos sair de detrás dos ecrãs e reaprender
a fazer coisas com as nossas e com outras mãos. O poder real da acampada não será
apenas medido pelo que ela consegue dizer no espaço público, mas acima de tudo pelo que ela conseguir construir, em termos materiais e comunais, no espaço concreto da cidade.
IV - Escalar as lutas. A acampada será local de múltiplos encontros e outros tantos
desencontros. É a acumulação crítica de amizades e de rivalidades que permite escalar
qualitativamente as lutas, fazendo que elas passem de reunir uma mão cheia de partidos e colectivos dispares a um movimento múltiplo de transformação do estado das coisas. É necessário que as lutas abandonem o sentido de estado. A acampada, enquanto ocupação, é a sua própria demanda.
V - As lutas abrem imaginários. A vida que queremos viver não é exportável para um
amanhã longínquo nem importável do futuro ou do passado. Ela é construída aqui e
agora, sem seguir receitas ideológicas. São as lutas que engendram essa vida: com as
suas vitórias e derrotas, com o que nelas construímos e destruímos. O processo de viver em conjunto a acampada é já, em si, uma experiência real de viver essa outra vida que nos é continuamente negada. E é uma forma de recuperarmos horizontes de revolução e utopia que o capitalismo tanto se esforça por nos fazer esquecer.
