“COMO DIZ O MICHAEL JACKSON, DEVÍAMOS PARTIR ISTO TUDO”

A Passarada #3

É de manhã. Alguns vão acordando e outrxs vão chegando a conta gotas. Ninguém dormiu bem, uns porque estavam acampadxs outros porque estavam preocupadxs, mas todxs parecem felizes de ali estar, ainda que gozem uns com os outros. Algum pessoal chilla nas tendas, outrxs vão fazendo actividades com crianças, outrxs estão só a apanhar sol ou sombra e a cuscar sobre as tricas do movimento. Algum pessoal decide procurar a faixa que tinha perdido na confusão do dia anterior. Encontra-a pendurada numa tenda e decide colocá-la num semáforo. Outros querem fazer uma biblioteca, mas não há mesas nem sequer cartões. Vão dar uma volta e encontram uma casa a ser esvaziada, o seu recheio espalhado pelo passeio. Dez minutos estão cerca de vinte pessoas a carregar portas, mesas, gavetas, sofás para a acampada. Pelo caminho cruzam-se com um bófia que conversa com um casal mais velho: “..mas 70% deles o que querem é a Ánarquia”. Tudo verdade sr. guarda, tudo verdade. Os sofás são limpos e encontram o seu sitio. Meia hora depois é como se sempre ali tivessem estado. Monta-se a biblioteca e dá-se-lhe o nome de Biblioteca Sean Bonney (lê-se “XAMBÓNI”). No outro canto da praça, em cima de um palco, pessoal de diferentes organizações declama os seus discursos, galvanizando as massas, ou pelo menos uns aos outros. Uma rapariga sobe ao palco e canta uma canção a mandar os milionários para o caralho. Por todo o lado se conspira e segreda. Rivais políticos tentam ouvir o que os outros dizem, uns querem que a acampada se sujeite ao calendário parlamentar, outros que o parlamento sa foda. Começa a assembleia geral.
Decide-se tudo e mais um par de botas. Entre as propostas oficiais e não oficiais encontra-se: dormir todxs em conchinha; Jam ritmos das resistência 24/7; Bandana obrigatória; Praça Luigi Mangione, Concurso de arremesso de bróculos à polícia; Fechar o Moedas no desterro; Workshops de guilhotina (o objecto, não o site); Escrever o hino da acampada. Enquanto toda a gente discute uma campista que trouxe um banco e um par de tesouras vai cortando o cabelo aos revoltosos. É um dia normal na acampada.

CARTA SOBRE OS MOTINS E A DÚVIDA

Mas enfim, mudei por completo o meu método. Há uns tempos pus-me a matutar numa poesia que só o inimigo pudesse entender. Ambos sabemos o que isso significa. Entretanto, e talvez tenha sido naquela noite de Março em que vagueava para os lados de Piccadilly, a ver os incêndios, a minha perspectiva sobre a questão mudou. Os gemidos poéticos deste século têm sido, na sua maior parte, uma patine banal de vaidade, snobismo e sofística: precisamos de uma nova prosódia e, embora não tenha grandes dúvidas de que um motim por si só não serve o propósito, parece-me certo que a tua recusa de abandonar a sala de seminário, essa, não serve de todo. Dito isto, tens alguma razão ao suspeitares que a forma motim é para mim um fetiche. ‘A não-violência é o núcleo das minhas posições morais’, dizes tu. ‘Orgulho-me de nunca ter inventado armas mortíferas’, dizes tu. Mas então e aquela noite em que electrocutámos não sei quantos cães. Lembras-te? Por corrente directa e alternada? Para provar que esta última era mais segura? Tínhamos tomado uma mão-cheia de MDMA nessa noite e por uma vez estávamos prontos a admitir que não éramos gentis, nem misericordiosos, nem meigos. Mas estou a desviar-me do assunto. O principal problema de um motim é que se transmuta com toda a facilidade numa espécie de intensidade negativa, e no próprio acto de nos libertarmos da nossa forma-mercadoria acabamos encarcerados ainda mais fundo dentro dela. No exterior, pelo menos, somos convertidos no preço do vidro, ou nas horas extraordinárias de um bófia. Ainda assim, só posso dizer isto porque não houve a porra de motim nenhum. A sério, se não andamos a incendiar carros não andamos aqui a fazer nada. Pensa na coisa assim. A cidade a afundar-se e a aquecer à medida que a pressão se acumula. Os electrões são espremidos para fora dos átomos e produzem uma substância nunca vista na Terra. Em tais condições extremas, o hidrogénio comporta-se como um metal líquido, conduzindo não só o calor, mas a electricidade. Se nada disto ocorre, é uma perda de tempo. Talvez penses que isto não se aplica a ti. Que reservas inesgotáveis nós possuímos de trevas, ignorância, selvajaria. Uma centena de milhões de pessoas usam electricidade e ainda assim põem fé no poder mágico de signos e exorcismos, no pesadelo das suas vidas de escravos dos ricos. Não vale a pena fingires que a carapuça não te serve. Lembra-te, uma poesia que só o inimigo possa entender. Isso partindo do princípio que nós, como se costuma dizer, realmente entendemos. Seremos mesmo capazes de chegar a um conhecimento da poesia por via do estudo da saliva dos cães? O céu de hidrogénio metálico tem dezenas de milhares de milhas de fundura.

5 de Agosto 2011

Sean Bonney
Cartas contra o Firmamento

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