BYE BYE ÉPOCA CONTEMPORÂNEA

A Passarada #0

“A PASSARADA” quer documentar os curtos vislumbres de outros mundos por vir que surgem por entre o colapso generalizado do capitalismo contemporâneo. Irá fazê-lo a partir de uma perspectiva que entende os movimentos revolucionários do passado enquanto janelas para algo que não chegou a ser, mas cuja promessa nos parece mais interessante do que quer que esteja em cima da mesa. Achamos, no entanto, que vivemos tempos interessantes, e que as revoluções por vir não irão vestir as mesmas roupas que as antigas.. “A PASSARADA” quer construir amizades e inimizades por entre as barricadas e os calhaus, não entre as redes sociais e as instituições. Estamos fartxs deste mundo de merda e queremos algo novo. Não somos os únicos e não estamos sós. Tchau época contemporânea.

Haverá uma revolução, ou não haverá. Se o segundo, estes poemas não terão passado de entreténs. Se o primeiro, ela vingará ou não vingará. Se o segundo, estes poemas foram melhores do que nada. Se o primeiro, trará motins, fogo, pilhagens, e estes espalhar-se-ão, ou não. Se o segundo, estes poemas terão sido curiosidades. Se o primeiro, trará mais motins, manifestos, barricadas, palavras de ordem e estes darão o salto para canções populares, ou não. Se o segundo, então pronto. Se o primeiro, estas canções populares serão ultrapassadas, ou não. Se o segundo, estes poemas não terão sido em nada diferentes das canções. Se o primeiro, a própria ideia de popular será abolida por via de motins, barricadas, manifestos, ocupações, fogos, ou não. Se o segundo, passaremos mais um punhado de décadas a falar de cultura. Se o primeiro, a revolução será então destruída por dentro ou por fora. Se o segundo, estes poemas caíram enquanto lutavam. Se o primeiro, haverá confrontos terríveis com antigos amigos, e haverá mais comunas, e os amantes serão inimigos. Não sabemos o que poderá acontecer para lá deste ponto mas seguramente isto é suficiente para chegar a algumas conclusões provisórias: o poema deve estar do lado dos motins, pilhagens, barricadas, ocupações, manifestos, comunas, palavras de ordem, fogo e inimigos.
Joshua Clover, Transistor
Trad. Miguel Cardoso