AINDA CÁ ESTAMOS

A Passarada #12

No último sábado enchemos a avenida e descemos para o Rossio com uma energia que não se via há muito. Houve quem falasse em 25 mil pessoas numa manif convocada por um espectro difuso, para lá da esquerda parlamentar e da sua área de influência, mesmo que também presente.

Conhecemos o desfecho dessa noite: cabeças rachadas à bastonada, cães atiçados, balas de borracha disparadas, tasers no Porto, motas a caçar manifestantes até à Graça. Uma repressão coordenada a nível nacional que diz tanto da verdadeira face de quem nos governa como do medo que têm sentido com a nossa presença na rua, onde temos criado e cimentado novos encontros, experimentando novas formas, aprendizagens e conspirações noite fora. O que os assusta verdadeiramente é a hipótese de a nossa existência deixar de ser marcada pelos ritmos e fluxos que reproduzem o capital, e de estabelecermos relações e formas de vida que permitam transformar a cidade em algo diferente de uma multidão de estranhos.

Acima de tudo, tem sido demonstrada uma força por parte do nosso campo político que, há um mês, poucas achariam possível. Esta dinâmica tem-se construído numa presença na rua que se tornou evidente na manif de dia 24 e não mostra sinais de esmorecer – estamos há 2 semanas a meter os pés na rua, sem parar! –, como bem o atestou a manif desta terça-feira em frente à Assembleia da República.

Este sábado regressamos à rua e à promessa de novas tendas no Rossio com toda esta bagagem. Por um lado, uma violência policial que parecia inimaginável mas que é a regra nos bairros da metrópole, onde tem sido testada, e se estende agora ao resto do corpo social, ao mesmo tempo que a decomposição do capitalismo se acentua. Por outro, voltamos também com uma mistura de determinação e fúria, mesmo que com tonalidades diferentes entre subjetividades e perspectivas.

Nos últimos dias, para quem esteve na praça e procurou escutar, tornou-se claro que se multiplicaram os balanços, as partilhas, as reuniões – públicas, privadas, clandestinas, informais, de que forma for. Toda a gente se sentiu convocada a defender aquele espaço, a afirmar que a sua existência não está confinada a reger-se pela ordem e pelo capital, e a expressar o desejo de influenciar o futuro da acampada. Discutiu-se sobre como nos organizamos, sobre o que fazemos se sábado correr bem ou mal, sobre como nos preparamos.

14 PROPOSTAS PARA CONSIDERAR ATÉ AMANHÃ

– A catástrofe é que tudo assim continue, porque o poder não está apenas onde se tomam decisões horrendas, mas onde quer que o discurso remova o corpo, a raiva, o grito, o gesto de viver –

Depois de uma assembleia que voltou a andar às voltas de si mesma para tentar pôr ordem a um organismo complexo e indomável, sobraram ainda mais perguntas e 14 propostas a considerar, que serão votadas hoje. Não obstante, nas periferias da roda da democracia, algumas pessoas sentam-se para partilhar o jantar numa manta com as companheiras, outras compõem uma canção que já andava na ponta da língua, outras treinam a subida à estátua para lhe amarrar um novo cartaz, outras tantas dão conta da preparação de materiais e táticas para alinhavar a manifestação convocada para amanhã, outras tantas empurram a uma viagem no tempo.

À medida do avanço da noite, o murmúrio da praça clama a urgência da interrupção.

Hoje, 1871, o dia começou com o alarido de infindos relógios espatifados. Organizadas contra o tempo dos esquecidos, um grupo de companheiras partiu todos os relógios da cidade, primeiro o da praça, depois os das igrejas, das estações, dos palacetes e centros comerciais. Os ponteiros tombaram como soldados vencidos e o tempo perdeu-se no caminho. Agora que ninguém sabe dizer que horas são, talvez se inaugure a hora dos que nunca a tiveram e se possa propelir um novo início. Nas ruas não tocam os sinos que organizavam anteriormente a vida, nem o tic-tac dá rumo ao dia de trabalho, nem há minutos que separem as pessoas dos seus desejos. Os relógios jazem destruídos e a cidade descobre a vertigem de atacar o seu maior serviço de ordem, de interromper a marcha inevitável dos vencedores. O tempo homogéneo, vazio, aquele que tudo mede e tudo transforma em mercadoria, está agora exposto, ferido de morte, e a história pode avançar ao ritmo que nos apetecer.

Hoje, 1968, aproveitando a greve dos trabalhadores da recolha do lixo, um dos grupos de afinidade composto nos últimos dias, recolheu todo o refugo entre a Lapa e a Graça e transportou-o até às portas da AR. Despejaram-no à entrada e chamaram-lhe uma troca cultural: lixo por lixo. De trás da escadaria e das portas encerradas de entrada e dos gabinetes, o templo da fantochada democrática viu-se perante a materialização daquilo que produz diariamente e, desta feita, sem escapatória possível. Contra a sua reprodução devidamente iluminada, patrocinada e protegida, o grafismo realista da matéria que ilustra os bairros e arrabaldes, onde a vida se acumula entre rendas impossíveis, despejos e geografias de detritos. Foi preciso devolver-lhes aquilo que, até agora, tinham habilmente aprendido a esconder.

Hoje, 1966, ao início da tarde, o grupo de trabalho de programação decidiu que a rua não precisava de autorização para existir. Levaram para o espaço público marionetas, molduras, objetos absurdos e pequenos dispositivos teatrais. A cidade tornou-se o palco, os transeuntes, espectadores e a polícia, sem o saber, recebeu de imediato um papel na representação. Quando empunharam o bloquinho de multas por obstrução da via pública, toda aquela gente irrompe em palavras de ordem: público quem? público o quê? só quem não quer é que não vê. Foi quando começaram a chover milhares de páginas rasgadas de dicionários com a palavra público reinventada, e a cidade desmoronou-se em gargalhadas. Quem por ali passava decidiu pousar as carteiras, descalçar os sapatos e juntar-se à tomada da rua, jogando e inventando coletivamente, que é o que acontece quando se leva a sério a brincadeira.

Hoje, 2026, aproveitando a decisão assembleária de interromper a cantina popular por um dia, para que as companheiras tivessem tempo para outras missões, as cozinheiras da acampada aprovam o exproprio das arcas de enxoval das casas de todas as avós. O alvo: lençóis. Aí para o fim da tarde, regressaram à praça, vindas de todos os cantos da cidade, com pilhas de enxergas e bons linhos. Sacaram das tesouras para lhes rasgarem dois buraquinhos à altura dos olhos, enquanto os redecoravam com tinta spray. Ao centro de todos os panos, uma foice e um martelo graffitados esclarecem o intento. Enfim, os espectros que pairavam sobre a Europa decidem formar fileira.

Hoje, 1972, às primeiras horas do dia, todas as rádios FM da cidade começaram a atrofiar ao mesmo tempo. A tundra cortou-lhes o pio e fez passar em loop um convite: que ninguém hoje se levante da cama, fiquem deitados com alguém, a fabricar instrumentos musicais e máquinas de guerra.

Amanhã, ao cair da noite, poderemos dizer que o poder não calculou a maravilhosa indicação que nos deu quando definiu os termos desta caça absurda à nossa imaginação. Um sábado como tantos outros que vieram antes dele, já está escuro. A praça da figueira e o rossio estão cobertas de confettis, cartuchos e destroços. A bófia foi-se embora. Respira-se cansaço, raiva e alegria. Um perfume de rebelião depois de anos de submissão. Os rostos das companheiras sorriem, todos têm olhos vermelhos devido ao gás lacrimogéneo. Rodam garrafas de bom vinho sacadas por aí. Champagne, ganzas e molotov. Um piano toca Chopin, está no meio da estrada, retirado de um bar, logo atrás de uma barricada. Hoje ninguém manda. Amanhã? Amanhã chegarão com os tanques. Seremos novamente expulsos. Mas hoje, por algumas horas, esta terra é livre. Chopin. Vinho. Raiva e gozo.

OUTRA CARTA SOBRE O SILÊNCIO

Sean Bonney, 30 de Agosto, 2011
Lisboa, 30 de Outubro de 2026

Continua a ser difícil falar de poemas nestas circunstâncias. O tempo brinca às suas repetições e Lisboa é a mesma navalha onde a calma incandescente nos mantém do lado de fora do seu perímetro. É incrível como a normalidade aguarda pacientemente a suspensão. Há um batalhão de gente a operar, na sombra, a iridescência, de modo que os dias se compõem, precisamente, enquanto teste à tese de Aimé Césaire: “um meio para atingir o infinito.”

Somos mais do mesmo, a mesma carne para canhão de que ninguém se lembrará e, ainda assim, estamos acima das notas de rodapé a que se reduzirão todos os nossos representantes políticos. Torna-se evidente como é fácil mandar isto tudo à fava, sim, “as palavras mágicas são encosta-te à parede filho da puta”. Mas não é fácil, dizias, a maior parte de nós volta ao trabalho de manhã para continuar a dar corda a esta forma de funcionamento do mundo, e tudo avança devagar, não é fácil concentrarmo-nos com todas estas rusgas policiais, espancamentos punitivos, fogos retaliatórios. “Não há, desgraçadamente, progresso! Não, são tudo reedições vulgares, repetições. Tal como em edições de mundos passados, assim as dos mundos futuros. Apenas o capítulo das bifurcações permanece aberto à esperança.”

Seria exagero dizer que a geometria da cidade se transformou, mas está a ser sujeita a uma torção brutal. Ganhou em dimensão, algumas coisas estão agora irreconhecíveis, outras ganharam nitidez. A nossa mesa estratégica está encavalitada sobre os joelhos, o traçado rasca atira ao definitivo. Que falta nos faz também a matemática, para explicar exatamente como é que se acaba uma noite de motim a costurar a cara de um companheiro; para descrever ponto a ponto o maravilhamento de um miúdo a descobrir um centro social, por exemplo assim: 1) chega esbaforido de fugir à bófia e entra numa garagem; 2) a malta está sentada, algumas a limpar a cara, outras a arranjar comida, outras a recuperar o fôlego; 3) alguém lhe dá uma maçã e ele pergunta se está lavadinha; 4) esfrega os olhos para dizer “não fazia ideia que existiam sítios assim.” Sim, é certo que não é isto que vai parar às revistas literárias, e sim, havia aquela hipótese da poesia se transformar dialeticamente na voz da multidão, mas, se não for isso, estamos fodidas, e vamos acabar a habitar um silêncio atroz de 2 metros quadrados.

Era agora que ela, a poesia, saía do seu coro conformista e vinha inundar tudo de humor, que é o mesmo que dizer que vinha latir para o meio de nós, dar corpo ao cantarolar mortiço das frases feitas. Porque, acredita, a violência policial é o conteúdo de toda a arte oficialmente sancionada.

Os últimos quartos que ainda há para arrendar nesta cidade situam-se no centro do aparato que a bófia nos trouxe, na balística, dentro dos fatos e atrás dos escudos. Recusamo-nos a mudar para lá. Recusamo-nos a continuar a falar de prosódia, temos a ferida aberta e preferimos viver dentro dela, pelo menos por enquanto.

Que esta não seja a última carta que recebemos da tua parte, estamos aqui aos berros a chamar-te de volta. Queremos dar corpo à descrição que Larry Neal fez dos motins daquela vez, “o processo para lançar mão à nossa história coletiva, de tomar controlo dela.” Queremos abrir a claraboia do Forte de Taureau, em 1871, em 2026, para espreitar a ascensão dos cometas à mesa dos astros maiores.

Estes nossos ferimentos não foram auto-infligidos.

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