A ORDEM REINA NO ROSSIO

A Passarada #4

Às 05h45 de 20 de Outubro a ordem foi resposta. Quem tenha passado no Rossio numa das últimas noites viu algo ao mesmo tempo familiar e impossível. Gente, imensa gente, a conviver, a conversar, a rir, a viver em conjunto, num local público, sem hora de ir embora, sem que se tratasse de um evento comercial ou institucional. A coisa mais normal do mundo surge hoje como a miragem de algo distante, perdido, proibido. Pela primeira vez em anos podia-se respirar em Lisboa, a cidade parecia uma cidade e não um parque de diversões. Em três dias, centenas de pessoas montaram uma estrutura funcional de coabitação e ressonância. Vinham de sítios diferentes, de experiências diferentes, de ideias diferentes. Uma comunidade militante alheia às instituições estava a conseguir superar a sua atomização congénita para se constituir em movimento, transcendendo os seus próprios limites, criando uma posição de antagonismo e resistência no coração da metrópole, criando uma subjectividade aberta e plástica capaz de tornar material a recusa da humilhação e da miséria que nos impigem enquanto resiliência e empreendedorismo.
O maior medo do poder, o maior medo de Moedas, Montenegro e Seguro, é que ocorra uma inversão desse fatalismo generalizado que nos é vendido enquanto identidade nacional. É que, de um momento para outro, toda a autocomiseração de quem dia após dia, ano após ano, amocha à razão de um estado cretino e prepotente se torne numa irrupção vital de alegria comunal e insurrecional. Foi essa possibilidade que nasceu nas acampadas e que urge, por todos os meios, controlar, reprimir, fazer regressar aos quadrantes da institucionalidade e do espectáculo. Não vão conseguir. Quem sente o cheiro de uma vida diferente, quem a experimenta materialmente entre velhas e novas amigas, não o cede assim tão facilmente. A questão não é apenas a casa, o salário, o trabalho, ou os direitos. A questão é existencial. É recusar, cabalmente, tornar-nos pouco mais do que autómatos de um capital que nos é enfiado pela goela a baixo.
HOJE ÀS 19H NO ROSSIO – RETOMAR A CIDADE