A ACAMPADA ALÉM DA ACAMPADA

A Passarada #9

Passou pouco mais de uma semana, mas parece que passaram dois meses. Impossível de contar tudo o que aconteceu, quantas pessoas conhecemos, difícil recordar quando os dias não começavam e terminavam a pensar na acampada. Uma cumplicidade silenciosa percorre-nos a todas. Um espanto que não cessa de crescer : somos cada vez mais, organizamos-mos cada vez melhor. Tácticas, palavras e conversas impossíveis de verbalizar há uma semana fazem agora parte de uma linguagem comum. As ingénuas tornaram-se veteranas, as niilistas tornaram-se crentes, as hesitantes tornam-se militantes.

Uma acampada é uma forma de luta singular : as necessidades infraestruturais e temporais são desmedidas. A exaustão surge paralela ao colapso dos pressupostos ideológicos. A materialidade da luta sobrepõe-se a qualquer mesquinhez sectária. Os soldados da primeira guerra mundial diziam que não existiam ateus nas trincheiras, acrescentamos: não existem cínicos nas barricadas. A pessoa que segura um pedaço de cartão para se proteger do Corpo de Intervenção tem em si mais alma e coragem que qualquer idiota na TV.

As acampadas, e outras formas de luta imersivas, escalam a intensidade das lutas. Elas superam o ecossistema activista, transformando-o em algo mais do que a mera acumulação de colectivos dispares em competição pela atenção e energia dos parcos meios antagonistas. Elas criam um movimento. Não um movimento social, mas o movimento: quando cada átomo de ímpeto insurrecional intui pertencer a algo que não existia antes e se entrega a essa força comum. Hoje, essa força comum assume a forma de acampada, mas ela pode sobreviver ao fim da acampada, que inevitavelmente chegará. Isso seria a sua maior vitória.

Em termos concretos isto que significaria que a área extra-parlamentar abandonaria a fase dos colectivos dispares para assumir essa forma de movimento. Isso não pressupõe qualquer unificação ideológica, metodológica ou temática (qualquer tentativa nesse sentido seria um recuo). Pelo contrário, a diversidade e multiplicidade de posições, por vezes contraditórias, será a nossa força. O que há a transversalizar será a questão do que fazer para tornar esta área materialmente mais forte, mais capaz, mais extensa. Deixar de pensar a acampada como a mera presença de tendas nesta ou naquela praça mas enquanto algo vasto: a acampada difusa.

O REGRESSO ÀS TENDAS

Era a minha segunda vez num movimento assim. A primeira, a outra acampada, tinha-a vivido de maneira completamente diferente. Era um estudante universitário com a paixão pelos livros. Tinha lido Foucault, Debord, e outros desse tipo, e tinha aprendido que o capitalismo era um monstro terrível e invencível. Mas quando começaram a aparecer tendas no Rossio, vi milhares de pessoas que, como eu, sonhavam uma vida diferente. Senti que tudo era possível. Decidi, então, que dedicaria a minha vida à militância. Não decidi, percebi que não tinha escolha.

Nos 14 anos que se seguiram, esse ciclo de protestos nunca desapareceu realmente. Constantemente o discutíamos, o analizavamos, o romantizavamos. Essa presença imaginária fazia-nos sonhar com o regresso das mobilizações. Em cada gesto de resistência viamos a promessa do retorno iminente às barricadas. Quando os protestos pela Palestina se tornaram manifs selvagens, começámos a murmurar : chegou a hora. Chamámos os amigos, discutimos até tarde, formámos novos grupos e novas cumplicidades.

Entao apareceram tendas no Porto, na Praça D João I. Fui a correr visitar a Invicta, tinha de verificar com os meus olhos se aquilo que há anos sonhávamos se estava mesmo a tornar real. Depois uma chamada numa página Instagram de origem desconhecida, para acampar em Lisboa. Esta parte vocês sabem: tendas, assembleias, porrada, conchinha, zangas, mais porrada. Voltar sempre tarde a casa, mas cheio de esperança. "Agora vemo-nos todos os dias". "Trouxeste A Passarada?". Pela segunda vez na vida, senti que tudo era possível.

“SE A HIPÓTESE DE DESOBEDECER, RESISTIR, RIPOSTAR, ETC, ESTÁ DE ANTEMÃO DESCARTADA, ESTAMOS APENAS A CHAMAR "PACIFISMO" À OBEDIÊNCIA. OU SEJA, NÃO SOMOS PACIFISTAS, LIMITAMOS-NOS A ACEITAR A VIOLÊNCIA DO ESTADO COMO A ÚNICA POSSÍVEL.”

UMA CAMARADA QUALQUER NUM CHAT PERDIDO

ASSEMBLEIAS E AFINIDADES

Um debate percorre o nosso movimento. Por considerarmos que não é apenas algo circunstancial decidimos regressar a ele. Qual o melhor modo de tomar as decisões colectivas cruciais para o funcionamento deste protesto? Duas posições têm surgido. Não pretendemos saber todos os termos da sua discussão ou aplicação mas tentaremos ser justas na sua descrição. A primeira posição defende que as decisões políticas devem ser tomadas na assembleia popular, enquanto as decisões operativas devem ser tomadas nos grupos de trabalho. As assembleias são abertas a todos e permitem auferir de modo imediato e verificável as vontades colectivas. A vontade popular é soberana, e portanto sobra pouco espaço a pressões palacianas ou identitárias. A crítica a esta primeira hipótese afirma que a assembleia popular não permite um debate mais aprofundado, que está ancorada numa performatividade efusiva, mais conducente a discursos inflamados do que à lucidez afiada de que necessitamos. Ao mesmo tempo, nem todos têm a eloquência, a segurança ou a vontade necessária para falar em público, acabando por excluir várias pessoas da discussão. A segunda posição diz que as decisões deveriam ser tomadas por uma reunião de delegados revogáveis, escolhidos por grupos de afinidade. Isto permitiria discussões mais profundas e decisões mais ágeis, enquanto fomentaria formas de organização mais profundas e menos ancoradas na performatividade da assembleia popular. O problema desta hipótese é que pressupõe que toda a gente na acampada faz parte de, ou sequer sabe o que é, um grupo de afinidade. Ela corre o risco de fazer com que uma experiência colectiva difusa e aberta regresse à bolha autorreferencial do activismo. Paralelamente, nem todos se sentem confortáveis em trabalhar em grupos pequenos, onde o poder carismático não é menor do que nas assembleias, apenas diferente. Uma crítica comum pode ser aplicada a ambas as posições: nenhuma delas realmente resolve a questão dos poderes palacianos, ou seja, das decisões que são tomadas longe dos locais de decisão. Um grupo organizado consegue facilmente manipular tanto uma assembleia popular (é a primeira coisa que se aprende a fazer enquanto membro de um partido político) como uma assembleia de delegados. Nenhuma das possibilidades realmente consegue fazer essa ponte complexa entre capacidade deliberativa e decisória e horizontalidade. A condição pessoal de cada um ditará uma preferência. Os tímidos preferem isto, os extrovertidos aquilo, os populistas isto, os conspiradores aquilo. Mais do que estabelecer quem tem razão, importa ir além do impasse.

A acampada não é um estado soberano. Ela não tem uma população fixa nem uma identidade nacional. Talvez seja um vicio da nossa educação liberal presumir que ela é uma unidade política coesa e que como tal tem de ter uma única forma de governo e de autoridade. A acampada nunca terá uma forma fechada de organização, porque ela, em si, é uma experiência aberta. O momento de lavragem da sua constituição será o momento em que ela termina enquanto experiência política. Na acampada convivem, em sintonia e em confronto, múltiplas formas de viver, de pensar, de fazer e de decidir. Isto não é uma veleidade poético libertária – é a mais material das verdades. A questão da gestão da acampada não é a de encontrar a teoria ou a forma certa, é a de aprender a viver em conjunto à volta de uma experiência imensamente volátil. O debate acerca de como tomar decisões precisa partir desta consciência. A acampada é incontrolável e imprevisível, tanto na sua força como na sua fraqueza, e o máximo que podemos fazer é pensar à volta dessas marés. Dito de outro modo – não estamos a discutir qual a forma soberana da acampada, mas sim como potenciar a sua força em cada momento.

Para isso é necessário uma mudança de paradigma. Toda a nossa energia e boa-vontade não chegará para descortinar, nestas semanas, a forma perfeita de organização horizontal das sociedades humanas. Em abstracto, isso não existe senão enquanto fantasia. O que existe sim é a possibilidade de conjugar em cada momento, em cada situação, o possível balanço entre reprodução da nossa força comum e a sua capacidade política: o momento onde conseguimos agir assegurando a nossa sobrevivência. O campo onde se baseia a discussão sobre a organização não é aquele da utopia, mas o da guerra civil.

Nesse sentido, não se trata de escolher entre Assembleia Popular e Grupos de Afinidade, mas de pensar que território conseguimos construir onde ambas estas formas de organização, e outras, joguem o seu melhor papel.

PRAÇA LUIGI MANGIONE

Quiçá contra alguns augúrios de esmorecimento, numa segunda-feira à noite sem concertos à vista, a Praça do Rossio volta a encher-se de gente. Uma conversa sobre os recentes levantes um pouco por todo o lado - com estudantes a apelar à greve, à ocupação das escolas e ao bloqueio da normalidade; com a décima assembleia popular - onde a votação sobre uma eventual mobilização da Acampada até à manifestação convocada pela polícia começa a mudar o tom pachorrento e a esboçar a procura de léxico para escapar à armadilha de achar que qualquer gesto conflituoso é forçosamente violento; e logo a seguir, com uma formação em acção de massas, que sentou mais de uma centena de pessoas no chão para o bê-á-bá da resistência com laivos de desobediência civil.

Enquanto na assembleia se começava a disputar o entendimento simplista do que significa ser- se pacífico, noção que no pós 25 de abril se espraiou enquanto argumentário popular hegemónico, um par de companheiras iça um cartaz que renomeia a praça. Passámos a ter a Praça Luigi Mangione, finalmente. Isto valeu-lhes a imediata aproximação da bófia para lhes lembrar que 1. não estavam autorizadas a subir à estátua e 2. muito menos com aquele conteúdo.

Para muitas das pessoas que têm dedicado o seu tempo, a sua vitalidade e criatividade à construção deste espaço rasgado a pulso, que veio suspender a normalidade na metrópole, começa a ficar claro que a tez indefesa e obediente não está à altura das necessidades que se vão apresentando. Num pequeno círculo de amigos murmura-se que assim não pode ser e que agora sinto-me pronto para o que der e vier. Num outro, mais adiante, que há aqui muita confusão entre pacifismo e legalismo. E depois há um puto deitado sozinho, atrás da estátua, que vai esfrangalhando um cravo à tesourada.

A verdade é que a Acampada não é um reality show e, carecendo de possibilidade de resumido estabelecimento dos objetivos que enceta, não se constrói para a disputa da opinião pública. Perceber isto, perceber realmente isto, dissipa a força e a tendência das propostas recuadas, simbólicas e performativas e recentra a discussão nos vectores que importam: por um lado a abertura desse tal terceiro espaço, onde as pessoas se têm encontrado diariamente para testar maneiras, táticas e resignificar a sua capacidade de permanência e compromisso; e por outro lado a resistência concreta a um problema transversal e asfixiante que tem roubado horizonte a toda a gente - a falta de habitação digna com que muitas pessoas já se confrontam e a perspectiva de que isso está para piorar.

Entretanto, no meio disto, houve uma vigilância constante e uma carga policial posterior, que empurrou muitas pessoas a terem que decidir, com poucos meios e pouco léxico, sobre como se querem posicionar nas trincheiras dessa investida concreta. Mártires sempre haverá, mas surgem agora mais vozes que clamam por um deslocamento destes conceitos relativamente pouco discutidos e certamente pouco disputados, a que se convencionou chamar de vandalismo e violência. Preferem chamar-lhe conflito. Ora, a definição de conflito deixa de se ficar pela costumeira ideia de uso de força, de investida, de coação, de tirania, e recentra a conversa em torno da ideia de disputa, de desacordo entre visões, interesses, valores e pontos de vista
tendencialmente incompatíveis.

Quando alguém decide defender-se além de ficar meramente sentado no chão a apanhar porrada, ou a ser insultado, ou, de um modo mais estrutural, a ver a sua vida, o seu horizonte e a sua possibilidade de ter um futuro a irem pelo ralo, pode fazê-lo de múltiplas formas e com recurso a um sem-fim de estratégias. A recusa em obedecer cegamente à violência do estado e das suas fileiras de actuação enquanto as únicas possíveis é a abertura da brecha do sonho diurno, concreto e lúcido, que transcende a conversa fiada, que permite a ampliação do vocabulário e que o inventa ao mesmo tempo.

Ontem e anteontem estas conversas começaram a desdobrar-se, paralelamente à queda da proposta de arregimentamento da Acampada para participação na manif de bófias que apelou ao apoio popular, porque já não vamos em cantigas - não, não estamos todas para o mesmo, não, não estamos todas do mesmo lado - e sim, há forças e estruturas que existem para a mera manutenção do projecto vigente para o mundo, que não nos serve e com o qual não nos alinhamos. O conflito é esse.

Ben Morea disse que o que eles nunca vão suportar é que sejamos como somos, que a nossa forma de fazer política, a nossa forma de rebeldia, seja equivalente à nossa forma de orar, que vamos para cima deles assim, com a nossa força bruta, as nossas mãos fodidas, a nossa gargalhada, a nossa fragilidade.

Podes não estar, ainda, disponível para reconfigurar o teu entendimento sobre os recursos que os meninos perdidos queiram pôr a jogo, mas não sejas capitão gancho. Não saías, ao menos, esbaforido em apelos de resignação e luva branca, protege as pessoas que estão a tentar, saíndo-lhes da frente.

Imoral é o capital, tudo o resto é circunstancial.

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